Conforme acentua Harari,“ A Revolução Cognitiva é, portanto, o ponto em que a história declarou independência da biologia”.( HARARI, 2011, p. 44). Os seres humanos passaram a criar narrativas com base não na biologia, mas com base na história, na mitologia e na cultura para explicar os fenômenos que via no mundo, e até mesmo a sua própria origem.
Ou seja, a Revolução Cognitiva permitiu que os seres humanos pudessem criar realidades paralelas àquelas do mundo físico, e o mais importante: acreditar nelas coletivamente. Isto serviu( e serve) como um laço coeso entre as pessoas, permitindo a criação de instituições que ficam além dos indivíduos. Isto significa que a ficção desempenha um papel importantíssimo no desenvolvimento da espécie humana.
Não é possível explicar com certeza por que a Revolução Cognitiva ocorreu apenas na espécie humana e não nos outros animais, mas o fato é que ela possibilitou a aquisição de grandes habilidades psicossociais nos seres humanos, que geraram evidentes benefícios para a nossa espécie. Tais aquisições, como o“ planejamento e realização de ações complexas, [...] grupos maiores e mais coesos, [...] cooperação entre números muito grandes de estranhos e rápida inovação do comportamento social”( HARARI, 2011, p. 43), foram essenciais para que os seres humanos pudessem se desenvolver e se destacar em meio as outras espécies animais. Mas tal descolamento tem ido mais longe do que a maioria de nós jamais previu.
Dando um salto histórico até os dias atuais, é possível verificar que paradigma histórico floresceu tanto ao ponto de hoje o ser humano achar possível até mesmo negar completamente a biologia, atribuindo fenômenos que são muito vinculados a questões biológicas e a narrativas puramente históricas e sociais.
Exemplificando: a aparente infinita criação e reconhecimento de novas identidades de gênero, fenômeno até então inédito na história da humanidade. Isso faz com que as categorias homem, mulher, mulher transexual e homem transexual passem a não ser suficientes. Ou seja, aparentemente, parte das ciências sociais evoluiu ao ponto de considerar que, atualmente, não são apenas os papeis de gênero que são socialmente construídos, mas os próprios gêneros passam a ser vistos como algo totalmente desvinculado da biologia.
A multiplicidade de gêneros no século XXI
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