Série Iniciados Vol. 23 | Seite 602

Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo Era um dia de festa, que alegria! esquecido. Lá fora o carrossel sempre girava Nesta passagem de um terceto para o outro o eu lírico reafirma seu estado solitário e silencioso referente ao mundo. Ele caminha “sem ruído”, como alguém “esquecido”, não chamando a atenção de nenhuma outra pessoa. Destaca-se, também, neste primeiro verso da última estrofe que ele começa a caminhar “adormecendo os pés no pó”. Nos versos finais o eu lírico confirma o seu estado de solidão. As rimas presentes entre os versos 12-13 (“pó” e “só”) se relacionam trazendo uma ideia de esvaziamento do seu estado de espírito. Ora, a palavra “pó”, analisada de maneira isolada, intercala questões voltadas à morte, além disso, é uma referência Bíblica, pois em Gn. 3: 19, ao descobri que Adão comeu o fruto proibido, o Senhor Deus disse: “[...] tu és pó e ao pó tornarás.” Sobretudo, ao relacionar com o soneto cardoziano, ponderamos certa reflexão do eu lírico, ao explanar que caminha diante do “[...] pó/ Das ruas”, no entanto, este pensamento se engloba com o seu estado de solidão, introduzindo o fato de que todos nós nascemos sós, dessa forma morreremos “sós”. No último verso, ocorre novamente uma comparação com o vento, aqui ele se autocompara, referindo-se a ele próprio como “devoto esquecido”. É interessante mencionar que todas as questões presentes nos versos anteriores resultam nesta temida conclusão do eu lírico. Vários pontos chamam a atenção nos sonetos dedicados a Nossa Senhora nas obras de Joaquim Cardozo, no entanto, destaca-se a constante presença referente às questões que levam a interioridade do eu lírico diante do seu sentimento de devoção. Além disso, um fato curioso chama a atenção, pois as considerações acerca do devoto solitário se apresentam não apenas neste soneto, mas sim em outros, como é o caso do soneto “Nossa Senhora das Graças N° 2”, em que o eu lírico também se manifesta em um dia de festa: [...] E enquanto o povo todo se esquecia Sozinho o vosso altar eu contemplava. [...] (CARDOZO, 2007, p. 386). Observa-se que em ambos o eu lírico se mostra solitário e com o mesmo sentimento de devoção a Nossa Senhora. Nos versos “E enquanto o povo todo se esquecia/ Sozinho o vosso altar eu contemplava”, apresenta uma ideia referente à separação dele com o mundo, trazendo assim mais proximidade com a Santa. Ora, relacionando estas questões com o soneto destinado a “Nossa Senhora do Carmo”, percebe-se que ocorre esta mesma percepção, ao retratar as músicas e os passeios das moças, diante do seu estado solitário no “pátio do Carmo.” O sentimento de oração ou preces equivale a um desejo de estímulo proeminente de uma alma que anseia por algo, seja um perdão divino, exaltação ou apenas um momento de confissão. No entanto, as variantes desse desejo equivalem aos motivos pelo qual o eu lírico busca o divino, pois tratando mais especificamente do poeta Joaquim Cardozo, percebemos que sua obra poética referente às orações católicas é norteada principalmente pelo sentimento de devoção, em que o maior objetivo do eu lírico é exaltar o seu estado de interioridade perante algumas conjunturas que se apresentam diante dele, no qual pode variar de um simples momento particular de perdão com determinada santa (A Santa Teresinha- oração e universo), ou um momento mais devoto diante da igreja ou de um altar (“Nossa Senhora das Graças”, “Nossa Senhora dos Prazeres”, “Nossa Senhora da Conceição”, “Nossa Senhora das Graças N° 2” e “Nossa Senhora do Carmo”). Neste panorama, a reescrita das Série Iniciados v. 23 603