Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo
Era um dia de festa, que
alegria!
esquecido.
Lá fora o carrossel sempre
girava
Nesta passagem de um terceto para o
outro o eu lírico reafirma seu estado solitário
e silencioso referente ao mundo. Ele caminha
“sem ruído”, como alguém “esquecido”,
não chamando a atenção de nenhuma outra
pessoa. Destaca-se, também, neste primeiro
verso da última estrofe que ele começa a
caminhar “adormecendo os pés no pó”.
Nos versos finais o eu lírico
confirma o seu estado de solidão. As rimas
presentes entre os versos 12-13 (“pó” e
“só”) se relacionam trazendo uma ideia de
esvaziamento do seu estado de espírito. Ora,
a palavra “pó”, analisada de maneira isolada,
intercala questões voltadas à morte, além
disso, é uma referência Bíblica, pois em Gn.
3: 19, ao descobri que Adão comeu o fruto
proibido, o Senhor Deus disse: “[...] tu és pó
e ao pó tornarás.” Sobretudo, ao relacionar
com o soneto cardoziano, ponderamos certa
reflexão do eu lírico, ao explanar que caminha
diante do “[...] pó/ Das ruas”, no entanto,
este pensamento se engloba com o seu estado
de solidão, introduzindo o fato de que todos
nós nascemos sós, dessa forma morreremos
“sós”.
No último verso, ocorre novamente
uma comparação com o vento, aqui ele se
autocompara, referindo-se a ele próprio
como “devoto esquecido”. É interessante
mencionar que todas as questões presentes
nos versos anteriores resultam nesta temida
conclusão do eu lírico.
Vários pontos chamam a atenção nos
sonetos dedicados a Nossa Senhora nas obras
de Joaquim Cardozo, no entanto, destaca-se
a constante presença referente às questões
que levam a interioridade do eu lírico diante
do seu sentimento de devoção. Além disso,
um fato curioso chama a atenção, pois as
considerações acerca do devoto solitário se
apresentam não apenas neste soneto, mas
sim em outros, como é o caso do soneto
“Nossa Senhora das Graças N° 2”, em que o
eu lírico também se manifesta em um dia de
festa:
[...]
E enquanto o povo todo se
esquecia
Sozinho o vosso altar eu
contemplava.
[...]
(CARDOZO, 2007, p. 386).
Observa-se que em ambos o eu
lírico se mostra solitário e com o mesmo
sentimento de devoção a Nossa Senhora. Nos
versos “E enquanto o povo todo se esquecia/
Sozinho o vosso altar eu contemplava”,
apresenta uma ideia referente à separação
dele com o mundo, trazendo assim mais
proximidade com a Santa. Ora, relacionando
estas questões com o soneto destinado a
“Nossa Senhora do Carmo”, percebe-se que
ocorre esta mesma percepção, ao retratar as
músicas e os passeios das moças, diante do
seu estado solitário no “pátio do Carmo.”
O
sentimento
de
oração
ou
preces equivale a um desejo de estímulo
proeminente de uma alma que anseia por
algo, seja um perdão divino, exaltação
ou apenas um momento de confissão. No
entanto, as variantes desse desejo equivalem
aos motivos pelo qual o eu lírico busca o
divino, pois tratando mais especificamente
do poeta Joaquim Cardozo, percebemos
que sua obra poética referente às orações
católicas é norteada principalmente pelo
sentimento de devoção, em que o maior
objetivo do eu lírico é exaltar o seu estado de
interioridade perante algumas conjunturas
que se apresentam diante dele, no qual pode
variar de um simples momento particular
de perdão com determinada santa (A Santa
Teresinha- oração e universo), ou um
momento mais devoto diante da igreja ou
de um altar (“Nossa Senhora das Graças”,
“Nossa Senhora dos Prazeres”, “Nossa
Senhora da Conceição”, “Nossa Senhora das
Graças N° 2” e “Nossa Senhora do Carmo”).
Neste panorama, a reescrita das
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