Série Iniciados Vol. 23 | Page 601

Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo
Santa: A ordem dos Carmelitas formou-se no Monte Carmelo, na Palestina e devido ao local foi erguida uma capela dedicada a Nossa Senhora do Carmo. Em meio a perseguições, o superior São Simão estava rezando para a santa no dia 16 de julho, data de sua celebração litúrgica, quando Ela apareceu e disse:“ Recebe, meu filho, este escapulário da tua ordem, que será o penhor do privilégio que eu alcancei para ti e para todos os filhos do Carmo. Todo o que morrer com este escapulário será preservado do fogo eterno”.( ALBUQUERQUE, 2016, p. 91). Ora, ao observar o primeiro verso do soneto, destaca-se uma espécie de descrição de fim de festa, em que o eu lírico encontra o pátio do convento completamente vazio. Esta festa, diante do lugar onde o sujeito lírico se encontra e a menção a Nossa Senhora do Carmo, traz uma ideia referente às festividades em homenagem a Santa intitulada no título, visto principalmente a celebração da padroeira da cidade de Recife em 16 de julho. O uso do enjambement entre os versos 1-2 enfatiza o local exato em que o eu lírico se encontra, em que diante daquele lugar silencioso ele consegue ouvir“ um sussurro macio” oriundos dos ventos.
A palavra vento toma força nos versos 3-4, na qual eu lírico se apropria deste fenômeno da natureza para fazer uma comparação entre o barulho atribuído à força dos ventos nas portas, com os devotos atrasados, em que, sempre chegam depois da missa ou minutos após o seu início. É uma verdadeira personificação de um elemento natural para representar atitudes de alguns fieis.
No segundo quarteto é utilizado um enjambement em todos os seus versos para descrever alguns aspectos que estão em sua volta. Nota-se que o eu lírico se encontra no pátio do convento, a qual ele já o descreveu nos versos anteriores como um lugar vazio. No entanto, aqui se percebe certa movimentação de pessoas e até de músicas, e nesta observação o eu lírico não se mostra participante, mas apenas um observador solitário diante de um mundo em movimento.
A palavra“ noite” presente no verso 8 soa de maneira peculiar, pois vem acompanhada de uma percepção de estranhamento do eu lírico, na qual o traz um“ lúbrico arrepio”( v. 8). Observa-se que nestes dois quartetos, a questão principal do sujeito lírico era descrever o lugar e alguns aspectos presentes em sua volta.
É interessante destacar que tudo está em seu devido lugar, afinal, o pátio do convento se encontra vazio porque as festividades acabaram, assim abrindo espaço para o surgimento de músicas e encontros em outros ambientes ao redor. No entanto, o que se aprende é uma sensação de pausa no tempo, em que o eu lírico se prende ao pátio do Carmo e torna-se um verdadeiro observador solitário, desse modo, e diante do seu estado de espírito ele, no primeiro terceto, evoca a Santa presente no título do soneto:
Padroeira a estas horas de infelizes. De mendigos, rufiões e meretrizes, Santa do amor de todos. Sem ruído,
Nossa Senhora do Carmo é apresentada como padroeira dos“ infelizes” e“ Santa do amor de todos”. É uma descrição sincera de um eu lírico em um estado de transe referente à sua consciência do tempo, em que evoca a Santa em uma espécie de prece de agradecimento e devoção. Assim abrindo espaço para a última estrofe:
Caminho adormecendo os pés no pó Das ruas, sonâmbulo que sou, e só. Só, como o vento, um devoto
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