Estratégias semântico-argumentativas e enunciativas em charges sobre o processo de impeachment
Marcuschi (2008) entende que os
gêneros estão compreendidos dentro de
domínios discursivos específicos, que para o
autor são as diferentes esferas da atividade
humana das quais derivam todos os gêneros
discursivos, os domínios discursivos são
jurídico, jornalístico, religioso, pessoal,
entre outros. A título de exemplo, no domínio
jurídico encontramos os gêneros orais e
escritos do universo jurídico, no domínio
jornalístico estão gêneros orais e escritos do
universo jornalístico e assim por diante.
Delimitando-nos para a domínio
jornalístico, teremos um campo de atuação
voltado a transmitir informações. Conforme
Nascimento (2010), a esfera jornalística, e
por consequência os gêneros dessa área de
atividade humana, tem a função de divulgar
e analisar os fatos ocorridos, para informar
a sociedade. Nascimento nos chama atenção
também para o caráter argumentativo da
língua e para a pretensa “objetividade”
da atividade jornalística, segundo ele,
a linguagem não é neutra, e os que se
utilizam da língua sempre que a utilizam
conforme seus objetivos e intenções. Desse
modo seria ingênuo acreditar que qualquer
construção verbal que envolva a língua
possa ser absolutamente impessoal. Na área
jornalística é preferível que o locutor opte
na maioria dos casos pela impessoalidade
discursiva, para transmitir uma ideia de
objetividade e imparcialidade em relação
aos fatos transmitidos, mas, como afirma o
autor, essa construção linguística é apenas
uma estratégia que permite ao locutor
comprometer-se em menor (ou maior grau)
com relação ao que está sendo dito.
Outra noção importante é a de que o
texto jornalístico é essencialmente polifônico.
No que diz respeito à natureza da produção
desse texto, Nascimento (2010, p. 59) explica
que um dos motivos de isso ocorrer reside
que “em sua atividade diária o jornalista
se vale de diferentes depoimentos, vozes,
pontos de vista para construir seu texto”. O
repórter precisa colher as falas das pessoas
que presenciaram aquele acontecimento e,
nos casos que envolvem análise dos fatos, o
próprio repórter emite uma opinião, e nesse
caso o discurso também conterá sua voz, o
que, por natureza, já demonstra a polifonia
(muitas vozes) nos gêneros do universo
jornalístico.
Entre os gêneros citados um que
merece nossa atenção aqui é a charge. Uma
das principais características da charge,
como Nascimento (2010) afirma, é seu
caráter multimodal, pois sua mensagem é
transmitida em dois planos, o linguístico e
o visual. É interessante notarmos que isso
não ocorre por acaso. Há, na verdade, uma
justificativa implícita: atingir um público
maior, como nos aponta Melo (2003). O uso
da imagem como instrumento de opinião
atende, muitas vezes, ao imperativo de
influenciar um público maior que aquele
dedicado à leitura atenta dos gêneros
opinativos convencionais.
Uma característica importante para a
formação de sentidos na charge é presença da
satirização e do humor crítico (notadamente
irônico e sarcástico) presente tanto nos
diálogos como também na caricaturização
dos personagens no plano visual. Como
Nascimento (2010) os informa, isso ocorre
através da construção do discurso linguístico
(as falas dos personagens) e pela construção
visual da imagem dos personagens, sendo
este segundo critério mais influente do
que o primeiro, uma vez que a construção
de sentidos se dá muito mais pelo domínio
visual do que pelo linguístico, prova disso é
que em certas charges nem encontramos o
uso de palavras.
Bakhtin (2003), ao se referir ao
conceito de gênero, aponta três elementos
que o constituem: conteúdo temático, estilo
verbal e estrutura composicional. Aplicando
esses elementos ao gênero charge, temos
como conteúdo temático veiculado:
Um tipo de discurso humorístico e,
consequentemente, é um discurso
crítico [...] Geralmente, as charges,
como as piadas políticas, são
transitórias, pois exploram assuntos
ou fatos, políticos ou não, relacionados
ao cotidiano ou a determinadas etapas
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