As livrarias franciscanas entre o setecentos e o oitocentos: acervos e temáticas em Pernambuco e na Paraíba
fica dos Noviços, & também lhe pertencem os
livros, & mais cousas dos Religiosos defuntos,
tirando aquellas que forem de pouco momento,
que os Guardiães, repartirão pelos Religiosos
com encargo de encomendarem a Deos a alma
do tal defunto por Missas, & Orações, segundo a
cousa, que do def unto receberem.
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Os livros que forem de pouca substancia,
como saõ alguns de devoção, ou outros pequenos
de outras matérias, o Irmão Provincial os
poderá repartir pelos Religiosos que lhe parecer;
advertindo juntamente que ao Irmão Ministro
pert~ece distribuir o fato, que fica dos Noviços,
& também lhe pertencem os livros, & mais
cousas dos Religiosos defuntos, tirando aquellas
que forem de pouco momento, que os Guardiães
repartirão pelos Religiosos com encargo de
encomendarem a Deos a alma do tal defunto
por Missas, & Orações, segundo a cousa, que do
defunto receberem.
Nesses 8 fragmentos evidenciados,
é possível perceber com clareza, uma série
de preocupações efetivas com a realização
da conservação das livrarias: quem
administrava, como deveria ser provida,
organização de importância temática dos
livros, instruções de conservação e normas
restringindo a circulação dos livros entre
os frades, além de punições severas para
os religiosos que desrespeitassem essa
normatividade.
Não conseguimos encontrar uma
documentação que permitisse uma apreciação
mais profunda acerca de como funcionavam
na prática essas normas descritas nos
Estatutos. Principalmente, de que forma os
religiosos não cumpriam tais normativas,
tendo em vista o tamanho da preocupação em
normatizar essa questão, demonstrando uma
preocupação interessante dos superiores
da Ordem. Entretanto, é muito interessante
as contribuições da pesquisadora Neslihan
Şenocak, a partir do livro The Poor and the
Perfect: the Rise of Learning in the Franciscan
Order 1209-1310. Ela investiga as diferentes
formas de aquisição e circulação de livros
entre os membros da Ordem Franciscana na
Idade Média, a formação e a expansão das
bibliotecas dos conventos. Ao estudar o caso
do convento de São Fortunato de Todi, ela não
encontrou apenas os catálogos e inventários
das bibliotecas, mas também um número
considerável dos livros originais medievais
que conseguiram sobreviver e estão hoje
na Biblioteca Comunal de Todi. A consulta
destas últimas foi relevante tendo em vista
que os comparando com os catálogos feitos
pelos frades medievais, ela percebeu que
algumas informações em relação aos autores
e os títulos das obras eram incorretas. Uma
grande parte destes acervos tinha como
origem doações de seculares que em função
de benefícios e graças alcançadas doavam
para a Ordem.
Além disso, ela conseguiu identificar
a movimentação dos religiosos que traziam
consigo livros antes de ingressarem na
ordem, que se abusavam do fato de ser um
bem material que poderiam ter e comprar de
forma privada, para usarem como principal
produto de troca, formando-se um relativo
fluxo comercial. Após a aquisição, eles
colocavam anotações em seus livros para que
quando morressem fossem devolvidos para
um específico convento ou a uma pessoa: uma
estipulação testamentária, aonde o testador
determinava o que deveria ser feito com os
seus bens após a sua morte. Dessa forma,
não era raro que coleções bibliográficas
inteiras de uma livraria conventual fossem
redirecionadas para um outro lugar ou a uma
pessoa específica. Alguns frades também
pediam dinheiro para parentes e seculares
para compra de livros. E este é um tema que
passa a ser discutido pela ordem em seus
capítulos. Quem possuía livros na Idade
Média, fundamentalmente possuía fortunas
ou fazia parte de grupos de grande poder na
sociedade. O voto de pobreza estava colocado
em cheque a partir do momento em que alguns
frades compravam livros individualmente,
tornando-se uma propriedade privada e não
de uso comum. Religiosos franciscanos como
São Boaventura, de fato, apoiavam a prática
da leitura para que os frades conhecessem a
Bíblia e pudessem assim ter o conhecimento
teológico necessário para fazer pregação.
Série Iniciados v. 23
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