Série Iniciados Vol. 23 | Page 311

As livrarias franciscanas entre o setecentos e o oitocentos: acervos e temáticas em Pernambuco e na Paraíba fica dos Noviços, & também lhe pertencem os livros, & mais cousas dos Religiosos defuntos, tirando aquellas que forem de pouco momento, que os Guardiães, repartirão pelos Religiosos com encargo de encomendarem a Deos a alma do tal defunto por Missas, & Orações, segundo a cousa, que do def unto receberem. 8- Os livros que forem de pouca substancia, como saõ alguns de devoção, ou outros pequenos de outras matérias, o Irmão Provincial os poderá repartir pelos Religiosos que lhe parecer; advertindo juntamente que ao Irmão Ministro pert~ece distribuir o fato, que fica dos Noviços, & também lhe pertencem os livros, & mais cousas dos Religiosos defuntos, tirando aquellas que forem de pouco momento, que os Guardiães repartirão pelos Religiosos com encargo de encomendarem a Deos a alma do tal defunto por Missas, & Orações, segundo a cousa, que do defunto receberem. Nesses 8 fragmentos evidenciados, é possível perceber com clareza, uma série de preocupações efetivas com a realização da conservação das livrarias: quem administrava, como deveria ser provida, organização de importância temática dos livros, instruções de conservação e normas restringindo a circulação dos livros entre os frades, além de punições severas para os religiosos que desrespeitassem essa normatividade. Não conseguimos encontrar uma documentação que permitisse uma apreciação mais profunda acerca de como funcionavam na prática essas normas descritas nos Estatutos. Principalmente, de que forma os religiosos não cumpriam tais normativas, tendo em vista o tamanho da preocupação em normatizar essa questão, demonstrando uma preocupação interessante dos superiores da Ordem. Entretanto, é muito interessante as contribuições da pesquisadora Neslihan Şenocak, a partir do livro The Poor and the Perfect: the Rise of Learning in the Franciscan Order 1209-1310. Ela investiga as diferentes formas de aquisição e circulação de livros entre os membros da Ordem Franciscana na Idade Média, a formação e a expansão das bibliotecas dos conventos. Ao estudar o caso do convento de São Fortunato de Todi, ela não encontrou apenas os catálogos e inventários das bibliotecas, mas também um número considerável dos livros originais medievais que conseguiram sobreviver e estão hoje na Biblioteca Comunal de Todi. A consulta destas últimas foi relevante tendo em vista que os comparando com os catálogos feitos pelos frades medievais, ela percebeu que algumas informações em relação aos autores e os títulos das obras eram incorretas. Uma grande parte destes acervos tinha como origem doações de seculares que em função de benefícios e graças alcançadas doavam para a Ordem. Além disso, ela conseguiu identificar a movimentação dos religiosos que traziam consigo livros antes de ingressarem na ordem, que se abusavam do fato de ser um bem material que poderiam ter e comprar de forma privada, para usarem como principal produto de troca, formando-se um relativo fluxo comercial. Após a aquisição, eles colocavam anotações em seus livros para que quando morressem fossem devolvidos para um específico convento ou a uma pessoa: uma estipulação testamentária, aonde o testador determinava o que deveria ser feito com os seus bens após a sua morte. Dessa forma, não era raro que coleções bibliográficas inteiras de uma livraria conventual fossem redirecionadas para um outro lugar ou a uma pessoa específica. Alguns frades também pediam dinheiro para parentes e seculares para compra de livros. E este é um tema que passa a ser discutido pela ordem em seus capítulos. Quem possuía livros na Idade Média, fundamentalmente possuía fortunas ou fazia parte de grupos de grande poder na sociedade. O voto de pobreza estava colocado em cheque a partir do momento em que alguns frades compravam livros individualmente, tornando-se uma propriedade privada e não de uso comum. Religiosos franciscanos como São Boaventura, de fato, apoiavam a prática da leitura para que os frades conhecessem a Bíblia e pudessem assim ter o conhecimento teológico necessário para fazer pregação. Série Iniciados v. 23 311