As livrarias franciscanas entre o setecentos e o oitocentos: acervos e temáticas em Pernambuco e na Paraíba
da Ordem, que acarretavam mudanças para
outras ordens religiosas, fugas de religiosos
e o abandono da vida monástica.
Nesse sentido, o estudo da formação
das livrarias franciscanas veio a avantajar os
resultados de pesquisas prévias anteriores,
para compreender tanto a formação
intramuros entre os próprios frades nas
dependências dos conventos, como também
para identificar as obras que eram adquiridas,
circuladas e lidas entre os conventos
franciscanos, ao passo de um entendimento
maior acerca dos passantes, lentes e mestres
de gramática da Ordem Seráfica. É importante
destacar que o termo “livrarias” no período
colonial possuía um significado diferente do
que antecipadamente podemos imaginar. Na
verdade, o dicionário de Raphael Bluteau³
esclarece que o termo significa um “lugar
onde estão muitos livros em estantes;
Bibliotheca; Livro”.
O estudo dessa temática nos fez
compreender melhor e perceber uma
complexa dinâmica interna existente entre
os frades menores na América portuguesa.
Além da própria aquisição de livros a partir do
repasse de Lisboa para a Província de Santo
Antônio do Brasil, havia também doações
e benesses relacionadas a estipulações
testamentárias, em que o testador constituía
uma pessoa como legatário ou herdeiro,
mas impunha que, uma vez verificada certa
condição, deveriam transmitir a outra pessoa,
por ele indicada, o legado ou a herança.
Assim, os livros doados deveriam ter uma
condição de uso; por conseguinte, de modo
geral, os frades coletavam livros, seja para a
própria comunidade ou de forma individual.
Embora de forma constitucional os frades não
tivessem o domínio dos livros, a permissão do
uso privado possibilitou práticas como as de
se alugar um livro da biblioteca do convento.
E por fim, os frades que entraram na Ordem
também contribuíram para a expansão das
livrarias dos conventos. Alguns traziam
consigo livros ou dinheiro para comprá-los.
Em síntese, nosso intento é
demonstrar como a Ordem Franciscana no
Brasil possui uma história fascinante e que,
por muito tempo, houve um silenciamento
a respeito da contribuição destes religiosos
no campo da Educação. De fato, um dos
grandes desafios de se fazer uma pesquisa
desse seguimento sobre os franciscanos é
a questão das fontes. E é muito discutida,
entre estudiosos da História da Educação, a
ideia de que os frades seráficos não tinham
o costume de deixar documentação sobre a
sua história, diferentemente dos jesuítas. No
entanto, documentos do Arquivo Histórico
Ultramarino, do Arquivo Provincial de Recife
e obras como o Novo Orbe Seráfico Brasílico e os
Estatutos4 da Ordem mostram o contrário: são
alguns exemplos de fontes importantíssimas
para as pesquisas que tem se realizado sobre
o assunto.
Fundamentação Teórica
A fundamentação teórica em que se
baseou a pesquisa foi constituída a partir de
uma série de textos para se compreender,
por um lado, o processo espacial e temporal
em que se insere a formação das livrarias
franciscanas entre o Setecentos e Oitocentos
e por outro lado, o campo de Teoria da
História e Historiografia da História Cultural.
No primeiro plano de trabalho entre
2015 e 2016, as leituras se ancoraram em
um aporte teórico que traziam discussões
sobre as origens medievais da Ordem, o
processo de chegada dos franciscanos na
América Portuguesa e América Espanhola,
como se deram essas relações, qual era
a prática de catequese franciscana e a
pedagogia seráfica para realizar a instrução
das primeiras letras, qual era a formação que
os franciscanos traziam como bagagem da
Europa, qual era o contexto da Capitania da
Paraíba e de Pernambuco entre 1750 e 1822 e
³BLUTEAU, Raphael. “Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico & etc...” 8 vols. Coimbra:
Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1712-1728. Disponível em: . Acesso em:
08 fev. 2017.
4ESTATUTOS da Província de S. Antonio do Brasil. Lisboa: Na Officina de Manoel & Joseph Lopes Ferreyra,
MDCCIX [1709]. Disponível em: . Acesso em: 02 jan. 2012.
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