Série Iniciados Vol. 23 | Page 305

As livrarias franciscanas entre o setecentos e o oitocentos: acervos e temáticas em Pernambuco e na Paraíba da Ordem, que acarretavam mudanças para outras ordens religiosas, fugas de religiosos e o abandono da vida monástica. Nesse sentido, o estudo da formação das livrarias franciscanas veio a avantajar os resultados de pesquisas prévias anteriores, para compreender tanto a formação intramuros entre os próprios frades nas dependências dos conventos, como também para identificar as obras que eram adquiridas, circuladas e lidas entre os conventos franciscanos, ao passo de um entendimento maior acerca dos passantes, lentes e mestres de gramática da Ordem Seráfica. É importante destacar que o termo “livrarias” no período colonial possuía um significado diferente do que antecipadamente podemos imaginar. Na verdade, o dicionário de Raphael Bluteau³ esclarece que o termo significa um “lugar onde estão muitos livros em estantes; Bibliotheca; Livro”. O estudo dessa temática nos fez compreender melhor e perceber uma complexa dinâmica interna existente entre os frades menores na América portuguesa. Além da própria aquisição de livros a partir do repasse de Lisboa para a Província de Santo Antônio do Brasil, havia também doações e benesses relacionadas a estipulações testamentárias, em que o testador constituía uma pessoa como legatário ou herdeiro, mas impunha que, uma vez verificada certa condição, deveriam transmitir a outra pessoa, por ele indicada, o legado ou a herança. Assim, os livros doados deveriam ter uma condição de uso; por conseguinte, de modo geral, os frades coletavam livros, seja para a própria comunidade ou de forma individual. Embora de forma constitucional os frades não tivessem o domínio dos livros, a permissão do uso privado possibilitou práticas como as de se alugar um livro da biblioteca do convento. E por fim, os frades que entraram na Ordem também contribuíram para a expansão das livrarias dos conventos. Alguns traziam consigo livros ou dinheiro para comprá-los. Em síntese, nosso intento é demonstrar como a Ordem Franciscana no Brasil possui uma história fascinante e que, por muito tempo, houve um silenciamento a respeito da contribuição destes religiosos no campo da Educação. De fato, um dos grandes desafios de se fazer uma pesquisa desse seguimento sobre os franciscanos é a questão das fontes. E é muito discutida, entre estudiosos da História da Educação, a ideia de que os frades seráficos não tinham o costume de deixar documentação sobre a sua história, diferentemente dos jesuítas. No entanto, documentos do Arquivo Histórico Ultramarino, do Arquivo Provincial de Recife e obras como o Novo Orbe Seráfico Brasílico e os Estatutos4 da Ordem mostram o contrário: são alguns exemplos de fontes importantíssimas para as pesquisas que tem se realizado sobre o assunto. Fundamentação Teórica A fundamentação teórica em que se baseou a pesquisa foi constituída a partir de uma série de textos para se compreender, por um lado, o processo espacial e temporal em que se insere a formação das livrarias franciscanas entre o Setecentos e Oitocentos e por outro lado, o campo de Teoria da História e Historiografia da História Cultural. No primeiro plano de trabalho entre 2015 e 2016, as leituras se ancoraram em um aporte teórico que traziam discussões sobre as origens medievais da Ordem, o processo de chegada dos franciscanos na América Portuguesa e América Espanhola, como se deram essas relações, qual era a prática de catequese franciscana e a pedagogia seráfica para realizar a instrução das primeiras letras, qual era a formação que os franciscanos traziam como bagagem da Europa, qual era o contexto da Capitania da Paraíba e de Pernambuco entre 1750 e 1822 e ³BLUTEAU, Raphael. “Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico & etc...” 8 vols. Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1712-1728. Disponível em: . Acesso em: 08 fev. 2017. 4ESTATUTOS da Província de S. Antonio do Brasil. Lisboa: Na Officina de Manoel & Joseph Lopes Ferreyra, MDCCIX [1709]. Disponível em: . Acesso em: 02 jan. 2012. Série Iniciados v. 23 305