Série Iniciados Vol. 23 | Page 271

Compreendendo a pedofilia: medidas explícita e implícita fundamentam o conhecimento científico, bem como permitiu ampliar o entendimento teórico acerca do construto estudado. Deste modo, confia-se que os objetivos propostos foram alcançados e que a execução do projeto ofereceu contribuições importantes à compreensão de variáveis centrais relacionadas à pedofilia. Este capítulo representa um dos primeiros empreendimentos científicos sobre a temática no âmbito da psicologia no Brasil. Fundamentação teórica A pedofilia pode ser definida como uma atração sexual por crianças que se encontram na fase da pré-puberdade, sendo caracterizada por recorrentes pensamentos, fantasias e comportamentos sexuais voltados para infantes (SETO, 2012; AZAMBUJA, 2006). Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), trata-se de um desvio sexual categorizado como parafilia, e que, para ser diagnosticado, demanda o cumprimento de critérios específicos (e.g., tempo de duração das fantasias, sofrimento intenso, dificuldades interpessoais). Estes critérios são aplicáveis tanto a pessoas que revelam abertamente essa parafilia quanto àquelas que negam qualquer forma de atração sexual por crianças, apesar de haver evidências concretas do contrário (DSM-V, 2014). Os indivíduos que sofrem desse transtorno podem reconhecer seu intenso interesse sexual por crianças, afirmando que este é maior ou igual ao interesse por indivíduos maduros, ou, ainda, que é exclusivo a pré-púberes. Nesse caso, se essas pessoas afirmam que suas preferências são causa de angústia e dificuldades psicossociais, podem ser diagnosticadas com transtorno pedofílico (302.2 é a correspondência diagnóstica no DSM-V). Contudo, se demonstram não sentir culpa ou vergonha por essas razões, e seu relato e história legal indicam que jamais colocaram em prática suas vontades, essas pessoas, então, apresentam orientação sexual pedofílica, mas não transtorno pedofílico (DSM-V, 2014). A prática do sexo pedofílico detém diferentes significados que se sustentam em razão de variações culturais, sendo frequente que este tipo de ato ocorra em diversas partes do mundo, principalmente em países do oriente (DEXHEIMER, 2009). Por outro lado, há pessoas, grupos e sociedades que se posicionam fortemente contra a licitude desta prática, argumentando que adultos que se envolvem em relações sexuais com meninos ou meninas pré-púberes devem ser considerados perversos, independentemente do “consentimento” do menor (ISLAM, 2015). Na literatura acerca desta temática é possível encontrar artigos (BAILEY, 2015; SETO, 2012) que se propõem a investigar se a pedofilia pode ser denominada como uma orientação sexual, assim como a bissexualidade, ou se trata de uma forma extrema de perversão, fundamentando- se como uma desordem psiquiátrica. Em vista disso, há um consenso razoável por definir pedofilia como uma irregularidade psicológica, não inata, e passível de tratamento, como, por exemplo, por meio da terapia cognitiva (ISLAM, 2015). Não obstante, a pergunta “pedofilia é uma orientação sexual?” se faz relevante ao passo que influencia na ciência e na prática clínica, assim como nas políticas públicas (SETO, 2012). Para a ciência a temática tem sido foco de pesquisas acerca da etiologia do quadro e do desenvolvimento sexual em diferentes idades; para tanto, têm-se utilizado de uma diversidade de técnicas, métodos e procedimentos científicos que buscam elucidar estas questões. Em relação à clínica, as investigações em pedofilia podem moldar as hipóteses diagnósticas, avaliação e prognóstico do transtorno; e, por sua vez, no contexto das políticas públicas, a resposta pode afetar as percepções e as estigmatizações da sociedade, o que implica na modificação de leis e políticas contra a discriminação de orientação sexual ou, ao menos, a menor associação subjetiva entre pedofilia (transtorno) e abuso sexual de crianças (ato criminoso contra a autodeterminação sexual Série Iniciados v. 23 271