RPL - Revista Portuguesa sobre o Luto 5 | Page 50

Vazio Eterno

Quando estamos de luto o medo nos acompanha sempre. Assim como a dor, ele fica no cantinho, dias mais brando, dias mais persistente. Quando minha filha morreu eu fiquei mais intensa e cautelosa, acho que até em exagero, pois tive a noção de como a vida é frágil e finita.

Mas com esse medo veio a vontade de entregar todo aquele amor e cuidado para um outro bebê. Com apoio do meu marido e das minhas duas outras filhas decidimos que alguém precisava sentir aquilo tudo que estava reservado para a Chiara. Oito meses após sua morte, depois de duas tentativas frustradas veio o nosso positivo, dia 28 de Junho de 2017. Estávamos nós quatro no banheiro esperando a listra vermelha aparecer em um teste de gravidez nas mãos... Quando a segunda listra apareceu meu marido e minha filha mais velha se puseram a chorar e aos gritos, a pequenina não entendia mas se deixou levar pela alegria dos dois, e eu? Eu senti o chão se abrir e o medo tomou conta de mim num choro alto com gemidos de tristeza. Não entendia aqueles sentimentos, queria tanto mais um bebê, só Deus sabe o quanto queria àquele, mas invés de euforia eu estava devastada pelo medo, invés de felicidade com uma nova vida eu só pensava em morte.

Esse sentimento perdurou durante alguns dias,

49