RPL - Revista Portuguesa sobre o Luto 5 | Page 45

esquece-la, ou, fico deitada revendo as cenas daqueles últimos dias e pensando no que poderia ter feito e no que fiz de errado (penso que deveria ter trocado a roupinha dela para o velório, mas não aguentei e sai do necrotério, penso que poderia ter pegado ela no colo pela última vez quando a médica deixou eu entrar e vê-la morta, penso que deveria ter me jogado na cova, penso que ela está sozinha no cemitério...)

Tenho crises em que minha mente apaga, fico com frio na barriga e tudo que penso é: "Ela não vai mais voltar!” Na sequência eu fico correndo pela casa, fumo (hábito que desenvolvi agora para me acalmar). Porém, as crises vem aumentando, esta semana fui com meu marido para o interior com a intenção de "aliviar o clima" e a crise veio, ele não estava e eu me escondi no meio do mato! Mas ele ouviu meu choro, meu grito e me encontrou.

Tomei medicamentos alguns dias e não me ajudou muito; o que tem me aliviado em alguns dias é o cigarro ou um "porre de vinho" que me faz dormir depois de muito chorar. Quando tenho que recontar a história (como agora), tremo demais e meu coração acelera muito, juntamente com uma grande falta de ar...

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Ester Miguel, 28 anos

Santo André (Brasil)

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