Riscos que nos ameaçam PD50 | Page 83

Para pensar uma política industrial contemporânea
Luiz Paulo Vellozo Lucas

A maioria dos economistas liberais ilustrados1 que se tornaram hegemônicos no Brasil, principalmente depois do sucesso do Plano Real, considera que não deve haver uma política industrial. A ideia de uma política de governo voltada para produzir crescimento econômico, orientando e incentivando setores e produtos que devem ser produzidos internamente no país, é percebida como sendo equivocada. Apenas políticas econômicas transversais, que atuem sobre toda a estrutura produtiva são recomendadas. Segundo esta visão, as vantagens competitivas do ambiente econômico, a competição internacional e a competência empresarial determinam o resultado final em relação aos produtos e serviços que o país consegue produzir competitivamente. Pretender alterar este resultado, por ação do Estado, seria voluntarismo governamental definido pela expressão pick the winner, traduzida livremente como sendo a estratégia dos“ campeões nacionais” usada para desqualificar liminarmente qualquer tipo de política industrial.

A origem desta controvérsia remonta ao final da segunda guerra mundial, com a polêmica entre Roberto Simonsen e Eugenio Gudin. 2 A vitória do projeto nacional desenvolvimentista
1 André Lara Resende se refere à“ tecnocracia liberal ilustrada” e a Gudin como seu primeiro expoente para designar os economistas que estiveram, como ele, na linha de frente do Plano Real, em Juros, Moeda e Ortodoxia, Portfolio-Penguin 2017. 2 André Lara Resende: Linhas mestras Gudin e Simonsen em Juros, Moeda e Ortodoxia, Portfolio-Penguin, 2017.
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