Mesmo com tal percepção daqueles que atuavam na sociedade pelo partido, o IV Congresso do PCB manteve a linha política do Manifesto de 1950, sem notar que na realidade o caminho para atuar na sociedade já vinha se desenhando e que a resposta raivosa ao retorno à clandestinidade não estava rendendo frutos. Foi quando ocorreu o XX Congresso do PCUS e Kruschev denunciou os crimes de Stalin. A demora na confirmação da veracidade do documento e que se abrisse debate sobre a situação do comunismo fez com que a intelectualidade comunista iniciasse esse processo, a despeito do Secretariado e do Comitê Central.
O impacto da morte de Vargas e a força de sua carta testamento constituem também um elemento importante na virada da política pecebista e é importante salientar isso para mostrar que não só a questão externa pressionava o PCB. No mais, o apoio à eleição de JK e Jango são exemplos de como essa perspectiva de atuação já se manifestava, antes mesmo da Declaração de Março de 1958. Mas é claro que o clima que se criou para discutir a questão do relatório Kruschev foi importante, visto a divisão que criou no partido e a necessidade de reorganizá-lo sob uma linha política bem definida.
Os debates aconteceram, então, na imprensa e criaram três grupos no partido, isso já no ano de 1957 – uma corrente renovadora, outra conservadora, e um grupo que formava um centro pragmático, os quais entram em disputa e este último grupo citado, graças à habilidade de Giocondo Dias, vale destacar, dão solução ao debate ao aliar-se com os conservadores e atrair parte dos renovadores. Mas para que, de fato, se apresentasse um encaminhamento e uma resolução da questão era preciso um realinhamento político e para tal Giocondo Dias, então secretário de Organização do PCB, destaca alguns quadros para redigir um documento que apontasse para um novo caminho.
Análise da Declaração de Março de 1958
O grupo, citado na primeira parte deste texto, apresenta um documento dividido em oito partes. Inicia tratando do processo de desenvolvimento econômico do país e externando as características básicas da herança colonial. Entende no avanço do capitalismo um elemento progressista para o incremento das forças produtivas, por conseguinte cresce o proletariado, mas é um cenário que convive e compõe com as forças atrasadas do latifún-
184 Rodrigo Wrencher Cosenza