Riscos que nos ameaçam PD50 | Page 178

Cinema Novo toda uma série de experimentos formais, os quais almejavam, ao mesmo tempo, uma linguagem nacional e uma abertura a práticas artísticas criativas internacionais. É que a Arte, muitas vezes, se equilibra em um fio de navalha. É sempre difícil encontrar o tom exato para se provocar uma determinada emoção estética. Mas este é, justamente, o território das obras clássicas e dos grandes movimentos culturais. E o termo clássico talvez não englobe tanto o que se passou e, sim, tudo aquilo que é de fato contemporâneo, que interpela sempre o tempo presente.
Mas Nelson Pereira tampouco esqueceria dos nossos sertões, ao adaptar para as telas do cinema, em 1963, o clássico Vidas Secas, de Graciliano Ramos, também ele militante do PCB. Da colonização do Brasil – que retrataria em Como era gostoso o meu francês, em 1971 – à força da cultura afro-brasileira – examinada em O amuleto de Ogum, três anos depois –, Nelson fez do Brasil e de seu povo o protagonista de seu extraordinário trabalho. Acontece que a vida nunca é oito ou oitenta – daí Mark Twain ter escrito certa vez que preferia“ o Paraíso pelo clima e o inferno pela companhia”.
Aqui, um rápido depoimento pessoal. Eu conheci Nelson Pereira dos Santos em 1973, na casa do meu querido amigo Antonio Luiz Soares, diretor de fotografia e que trabalharia com o diretor de Memórias do cárcere pela vida afora. Homem afável, extremamente acessível, Nelson não parecia ter aquela importância toda. A vida foi me ensinando que esta era uma característica de todas as pessoas que realmente contam. O mesmo talvez não possa ser dito dos medíocres. Desde então, fui mantendo contatos esporádicos com ele, por vezes em presença de Francisco Inácio de Almeida – seu amigo desde a época em que colaborou com as locações de Vidas Secas, no sertão nordestino – e Vladimir Carvalho – a quem Nelson tanto admirava, facultando-lhe, por exemplo, o cinema da ABL para a estreia do estupendo O engenho de Zé Lins, evento que tive a honra de comparecer.
De uma forma ou de outra, sempre permanecemos em contato. Até que fiz ao Nelson um pedido. Qual seja, se ele concordaria que eu realizasse um documentário sobre sua vida e seu trabalho. Isto implicaria relatar sua passagem pelo Partido Comunista Brasileiro, sua entrada para o cinema, sua atividade como jornalista, seus problemas com a polícia política, sua luta contra a censura e os absurdos perpetrados pela ditadura militar. A resposta foi positiva e começamos a filmar, na própria Acade-
176 Ivan Alves Filho