Criado na década de 50, o Cinema Novo ganharia impulso no
início dos anos 60, quando desponta toda uma geração de jovens
e talentosos cineastas – além do Nelson, poderíamos citar Glau-
ber Rocha, Leon Hirszman, Cacá Diegues e Joaquim Pedro de
Andrade, entre outros.
Convém destacar que Nelson Pereira dos Santos, membro do
Partido Comunista Brasileiro, ao qual aderira ainda na juven-
tude, filmou Rio, 40 graus com apenas 26 anos de idade, reve-
lando já nessa obra, datada de 1955, um compromisso inabalável
com as lutas sociais do povo brasileiro, retratando a realidade de
uma favela carioca. O interessante neste filme é que ele adotava
um ponto de vista resolutamente urbano, quando sabemos que,
mais tarde, o Cinema Novo enveredaria pelo caminho da roça, em
busca do Brasil profundo. Ao que tudo indica, para a maior parte
dos nossos diretores, é como se o mundo agrário, por ser mais
tradicional, fosse automaticamente mais autêntico, em contrapo-
sição a um espaço urbano mais cosmopolita e, portanto, permeá-
vel às chamadas influências externas. Nunca é demais lembrar
que aqueles eram os tempos das Ligas Camponesas e da guerri-
lha de Sierra Maestra, com destaque para a questão agrária na
América Latina em geral.
Formado no PCB, Nelson tinha uma visão mais moderna, se
podemos dizer assim, da realidade da época. Se fôssemos trans-
portá-lo para a realidade russa do início do século XX, nada tinha
de um narodnik, por exemplo. De qualquer modo, até o advento do
Cinema Novo, a produção brasileira limitava-se, praticamente, a
revelar despretensiosas chanchadas, um gênero cômico sem
maiores compromissos com a realidade social e política do país.
Talvez – e colocamos isto aqui como uma hipótese, naturalmente
– Nelson, como artista extremamente sensível que era, já sentia
soprar os novos ventos do desenvolvimentismo e da industrializa-
ção que Juscelino Kubitschek imprimiria a seu governo. Afinal,
naquele mesmo ano de 1955, se daria a eleição de JK, empossado
no ano seguinte. Seu Plano de Metas – para o qual colaborariam
Celso Furtado e Ignácio Rangel, respeitados economistas – colo-
caria o Brasil nos trilhos da democracia com arranque econô-
mico. Era um período privilegiado para a nação brasileira.
Inversamente, ao ser submetido à rigorosa censura estabele-
cida pelos sucessivos governos militares pós-64 e cada vez mais
fraccionado por disputas internas, o Cinema Novo perdeu boa
parte da sua influência cultural. De toda forma, devemos ao
O mais belo filme de Nelson Pereira dos Santos
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