Agora entrando num assunto mais polêmico; sobre Mari-
elle Franco. Alguns dias atrás foi divulgado um vídeo com
alguns homens, políticos, quebrando uma placa de rua com
o nome dela. O que o senhor reflete sobre essa situação?
Isso é um absurdo. Marielle morreu uma vez: executada,
baleada. E morre uma segunda vez, agora simbolicamente
com essa placa quebrada. Essa quebra, é a quebra da
memória, é a retirada de seu legado.
Impediram ela de viver no ponto de vista físico e biológi-
co, querem impedir que ela viva na memória da população.
Uma das pessoas envolvidas nesse ato foi eleita. O outro
era então candidato ao governo do Rio de Janeiro( Wilson
Witzel, governador eleito de RJ em 2018).
Foi um ato de vandalismo, um crime. Depredação de
patrimônio Público.
Pessoas que estão galgando um cargo público cometem
isso em cima de um palanque, em frente à uma multidão.
Marielle foi uma grande mulher engajada na política,
vinda da favela, ligada às comunidades. Sempre lutou pelo
movimento negro, das mulheres. Contra milícias que mata-
vam pessoas, consumiam com seus corpos e eram dadas
como desaparecidas.
E dentro da Câmara, ela sempre impôs sua voz. Chegou
um momento em que ela causou um desconforto no status
quó.
Não houve solução pro caso dela. Quem matou Marielle
Franco? Uma mulher altiva que era um exemplo de engaja-
mento político. Teve sua vida ceifada por poderosos, pois o
que aconteceu foi um crime político. Isso foi exposto na
mídia. Quando nós vemos uma tentativa de acabar com
uma homenagem singela ao seu legado, como uma placa de
rua com seu nome, quando isso é depredado, é uma forma
de dizer “Vocês vêem? Vocês vêem mulheres essas mulhe-
res ligadas à esquerda? Engajadas politicamente? Quando
nós estivermos no poder, isso não mais existirá. Porque nós
impediremos que elas atuem”.
Isso é preocupantes, pois numa democracia todos
devem ter seu espaço. Mas precisamos ter bom senso e res-
peito. É uma disputa de discursos, mas deve ser feita dentro
de um jogo limpo. Não podemos cometer crimes em nome de
um interesse.