Revista Wonder revista (4) | Page 56

Agora entrando num assunto mais polêmico; sobre Mari- elle Franco. Alguns dias atrás foi divulgado um vídeo com alguns homens, políticos, quebrando uma placa de rua com o nome dela. O que o senhor reflete sobre essa situação? Isso é um absurdo. Marielle morreu uma vez: executada, baleada. E morre uma segunda vez, agora simbolicamente com essa placa quebrada. Essa quebra, é a quebra da memória, é a retirada de seu legado. Impediram ela de viver no ponto de vista físico e biológi- co, querem impedir que ela viva na memória da população. Uma das pessoas envolvidas nesse ato foi eleita. O outro era então candidato ao governo do Rio de Janeiro( Wilson Witzel, governador eleito de RJ em 2018). Foi um ato de vandalismo, um crime. Depredação de patrimônio Público. Pessoas que estão galgando um cargo público cometem isso em cima de um palanque, em frente à uma multidão. Marielle foi uma grande mulher engajada na política, vinda da favela, ligada às comunidades. Sempre lutou pelo movimento negro, das mulheres. Contra milícias que mata- vam pessoas, consumiam com seus corpos e eram dadas como desaparecidas. E dentro da Câmara, ela sempre impôs sua voz. Chegou um momento em que ela causou um desconforto no status quó. Não houve solução pro caso dela. Quem matou Marielle Franco? Uma mulher altiva que era um exemplo de engaja- mento político. Teve sua vida ceifada por poderosos, pois o que aconteceu foi um crime político. Isso foi exposto na mídia. Quando nós vemos uma tentativa de acabar com uma homenagem singela ao seu legado, como uma placa de rua com seu nome, quando isso é depredado, é uma forma de dizer “Vocês vêem? Vocês vêem mulheres essas mulhe- res ligadas à esquerda? Engajadas politicamente? Quando nós estivermos no poder, isso não mais existirá. Porque nós impediremos que elas atuem”. Isso é preocupantes, pois numa democracia todos devem ter seu espaço. Mas precisamos ter bom senso e res- peito. É uma disputa de discursos, mas deve ser feita dentro de um jogo limpo. Não podemos cometer crimes em nome de um interesse.