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contos
O menino de cabelos dourados
Nathane dos Santos
Não importa quanto o tempo passe, eu nunca vou esquecer dele. Sempre que penso
naquele tempo, as memórias mais insistentes são aquelas que ele faz parte. Acabo me
perdendo em devaneios conforme vou sendo tomado pelo sentimento de nostalgia e,
consequentemente, de melancolia. Sinto muita falta dele!
Foi em 2005 mas, para mim parece ter sido a menos tempo, já que me lembro dele de
forma tão nítida que é como se eu o tivesse visto há pouco. Eu havia trocado de escola e
ainda não tinha amigos, nunca fui uma pessoa boa em se adaptar rápido em um ambiente
novo. Foi durante o intervalo do meu terceiro dia que eu o vi pela primeira vez.
Seus cabelos eram tão dourados quanto o mais puro ouro, os olhos num tom acastanhado
como duas enormes avelãs, os lábios rosados em contraste com a pele pálida. Ele me
lembrava um girassol, mas não um girassol qualquer: o mais belo do jardim.
Os garotos da escola ficavam no nosso pé. Nos perseguiam e falavam palavras vulgares
ao nosso respeito. Talvez por inveja, para que ficássemos deprimidos e sentíssemos
inferiores. Comigo ainda era pior. Todos viam aquilo, tanto professores quanto alunos,
mas ninguém se importava. Era como fossemos irrelevantes, sem valor algum.
O meu girassol também não tinha amigos. Como éramos parecidos! Por alguma razão, os
outros o ignoravam e evitavam como se ele fosse portador de uma doença grave e
transmissível. Diziam que ele tinha um jeitinho. Um dia eu resolvi conversar com ele. Foi
depois dessa iniciativa que viramos melhores amigos. Ficamos tão próximos que
parecíamos nos conhecer há anos. Só desgrudávamos quando era hora de ir para casa, já
que a favela onde eu morava era muito longe do condomínio onde ele residia. Era quando
eu me lembrava que naquela escola eu era apenas um bolsista.
Chamavam ele de boiola. Comigo era pior. Olhavam para mim com desprezo. Caçam
vorazmente as piores palavras. Esse aí é cotas, é só um bolsista de merda. Olha como ele
fede. Vai seu favelado. Além de negro, ainda é bicha, diziam. Quando começavam com
isso, meu amigo me oferecia sua mão para que andássemos de mãos dadas pela escola.
Ele realmente era apegado a mim e vivia dizendo o quanto admirava a minha pele, a
minha personalidade, a cor dos meus olhos e o estilo do meu cabelo. Ouvir a pessoa que
você gosta te elogiando e mostrando que também se importa contigo é uma das melhores
sensações que existem.
Nós éramos tão próximos que o pai dele resolveu que queria me conhecer. Quando o
menino de cabelos dourados nos apresentou, seu pai não escondeu o desprezo perante a
cor da minha pele. Tentava ser civilizado, se referindo a mim como "moreninho" e
“queimadinho”, embora eu seja retinto. O clima ficava tenso sempre que ele
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