REVISTA RABISCOS DE CONTOS Revista Rabiscos de Contos IFBA | Página 42

rabiscos de contos O que a água não lava Milena de Jesus O sol nasceu dezesseis vezes desde a chegada deles, Lia contou. Homens com uma brancura jamais vista por ninguém da aldeia. Chegaram navegando em coisas desconhecidas para todos dali. Ficaram encantados e aterrorizados pelo desconhecido. Aquele povo estava em paz com a sua família, era o que Lia pensava dentro de sua tenda. Em sua mão segurava algo chamado espelho, por onde olhava seus olhos acastanhados e grandes. Seus cabelos medianos, recém banhados pelo rio, estavam úmidos ainda quando tudo começou. Primeiro ela ouviu barulhos que nunca havia escutado antes, logo depois gritos. Gritos de sua família! Lia ficou encolhida em sua tenda. Jamais em sua curta vida tinha escutado tantos gritos de dor e medo de seus irmãos. As sombras que ela via fora de sua tenda a deixaram paralisada. Mas, antes de Lia pensar em reagir, acontecendo. O homem estrangeiro, que a olhava desde a chegada, a agarrou. Barbudo e com o olhar monstruoso. Era assim que Lia enxergava aquele homem. Suas mãos sujas de sangue agarraram seus braços. Ela gritava para que parasse, para que não lhe tocasse com aquelas mãos manchadas pelo sangue de sua família. Sua pele ardia de tapas e agressões. Lia era muda para aquele homem.... Assim como muitas outras foram. 41