REVISTA RABISCOS DE CONTOS Revista Rabiscos de Contos IFBA | Página 39
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Garotos da rua
Mayara das Neves Silva
Era uma vez garotos que viviam em uma cidade que é sinônimo de alegria para muita
gente. Por trás de toda essa imagem de um lugar onde sempre tudo era colorido, esses
garotos conheciam a parte cinza. A casa desses meninos era a rua e, para as pessoas que
não viviam nela, eles eram meio-gente e meio-invisíveis. Ao ver um desses garotos era
como se eles nem estivessem ali. Viviam para eles mesmos em uma família só de irmãos.
Viver na rua fazia com que eles parassem de sonhar um sonho distante.
O mais velho tinha quinze. Gabriel era como se fosse um pai para todos. Não gostava
muito de falar sobre o seu passado e os outros meninos preferiam não perguntar. De
meninos só tinham a idade, afinal eles levavam uma vida de adultos. Os mais novos eram
encarregados de ficar na porta de estabelecimentos oferecendo ajuda para carregar sacolas
para velhinhos. Quando um acreditava na bondade de um dos meninos, era só ele sair
correndo. Eles tinham que se virar.
Certo dia, os meninos notaram que o Gabriel estava demorando. Foi quando eles acharam
o líder do grupo deitado com ferimentos fortes. Naquele momento os garotos puderam
sentir o seu coração tremer. E a agora, a quem recorrer? Nós somos invisíveis! exclamou
o mais novo.
Os garotos levaram Gabriel até o posto médico. Quando eles lá chegaram, a recepcionista
comentou: esse neguinho aí aguenta. Mas, ele não aguentou. Dizem que ele era uma
pessoa, dizem até que era só um menino e que não deveria carregar o fardo da sociedade.
Mas, para algumas pessoas era só mais uma carne preta. Só mais um garoto de rua.
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