REVISTA RABISCOS DE CONTOS Revista Rabiscos de Contos IFBA | Page 35

rabiscos de contos Negrinha Maria Eduarda Louzado Nascimento Santos “Negrinha”, a palavra mais usada para ofender diretamente a dona Maria, mulher negra, empregada doméstica, mãe de 3 filhos, moradora de periferia. Acordava todos os dias as 4 da manhã para deixar a casa em ordem, alimentar seus filhos com o pão contado de todas as manhãs, pegar o transporte das 5:30 e bater ponto na casa dos patrões no bairro da burguesia, onde tudo era mais harmônico, onde a realidade de vida era um mundo inalcançável e se tornava, sempre, apenas um sonho para dona Maria. Durante o serviço, Maria se pegava várias vezes pensando no quão difícil é a vida de uma mulher negra e pobre, na quantidade de vezes que era insultada na rua, pontos de ônibus. Até mesmo os olhares se tornaram uma forma de insulto quando já se sabe qual o motivo de lhe julgarem. Desde pequena dona Maria foi ensinada a considerar normal ser tratada na vida apenas como um objeto de trabalho, desejo sexual, ou até mesmo vista como uma espécie diferente das demais. Ter essa posição na sociedade era praticamente um castigo por um erro que nunca cometeu. Embora não se encaixasse nos padrões brancamente impostos, ter orgulho de si mesma era o que motivava e dava forças para dona Maria viver como uma verdadeira guerreira. Mulata, negrinha, pretinha e todos esses adjetivos ofensivos que se incorporavam em Maria a faziam se sentir mais orgulhosa de ser quem era: Mulher Negra. Até porque ofender é a forma mais fácil que as pessoas encontravam para camuflar a incapacidade de viver como uma verdadeira dona Maria. 34