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Negrinha
Maria Eduarda Louzado Nascimento Santos
“Negrinha”, a palavra mais usada para ofender diretamente a dona Maria, mulher negra,
empregada doméstica, mãe de 3 filhos, moradora de periferia. Acordava todos os dias as
4 da manhã para deixar a casa em ordem, alimentar seus filhos com o pão contado de
todas as manhãs, pegar o transporte das 5:30 e bater ponto na casa dos patrões no bairro
da burguesia, onde tudo era mais harmônico, onde a realidade de vida era um mundo
inalcançável e se tornava, sempre, apenas um sonho para dona Maria.
Durante o serviço, Maria se pegava várias vezes pensando no quão difícil é a vida de uma
mulher negra e pobre, na quantidade de vezes que era insultada na rua, pontos de ônibus.
Até mesmo os olhares se tornaram uma forma de insulto quando já se sabe qual o motivo
de lhe julgarem. Desde pequena dona Maria foi ensinada a considerar normal ser tratada
na vida apenas como um objeto de trabalho, desejo sexual, ou até mesmo vista como uma
espécie diferente das demais.
Ter essa posição na sociedade era praticamente um castigo por um erro que nunca
cometeu. Embora não se encaixasse nos padrões brancamente impostos, ter orgulho de si
mesma era o que motivava e dava forças para dona Maria viver como uma verdadeira
guerreira. Mulata, negrinha, pretinha e todos esses adjetivos ofensivos que se
incorporavam em Maria a faziam se sentir mais orgulhosa de ser quem era: Mulher Negra.
Até porque ofender é a forma mais fácil que as pessoas encontravam para camuflar a
incapacidade de viver como uma verdadeira dona Maria.
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