REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 97

A desintegração dos processos inteiros de produção propostos pela indústria se chocam com a resistência das mãos que criam, moldam e reproduzem. Esta resistência se manifesta nas múltiplas margens de produção do impresso, as quais o limite da página nem sempre delimita o espaço de atuação. Com as variações possíveis fora da convenção, as formas do livro inevitavelmente se ampliam e os formatos vigentes se estendem. As dobram do livro se encontram com a multiplicidade de técnicas possíveis, das quais uma parte depende da execução manual. Do fazer com as próprias mãos. Onde o contato sutil entre o corpo humano e o corpo do livro deixam marcas e traços característicos. E assim a relação híbrida gerada pelo embate dos corpos, e a relação de sentido em elementos da produção artesanal, reage ao estritamente industrial e ao estabelecido e segmentado pela necessidade de expansão. Embora o fazer manual seja comum nas escolhas feitas por alguns artistas ou editores independentes, encontram antecedentes em diferentes contextos pré-industriais tanto na Europa como nas Américas. A produção do livro, até a consolidação do capitalismo editorial, é artesanal 1 . A partir da revolução industrial, ao contrário de uma ruptura definitiva dos modos de produção, práticas artesanais e industriais coexistem, e em alguns momentos criam relações híbridas, seja nos processos de criação ou execução 2 . Característica relativamente fácil de perceber, por exemplo, se recordarmos a diversidade de modos de produção do impresso no contexto brasileiro. O que segundo Mario Camargo, permite que se faça uma história do impresso apenas com as técnicas vigentes no momento presente. Como a xilogravura no cordel, os ateliês de litogravura ou de tipografia, práticas que encontram paralelos em outros países da América Latina. Os livros El tiempo en las raices, respiro, Pequeno livro de mal criações para crianças bem criadas e dear lover, goodbye tem algo intimamente relacionado, quando se trata do embate dos materiais, modos de produção do livro, estratégias e encontros possíveis, onde agora o industrial e o artesanal geram um contexto que ultrapassa as fronteiras de um ou de outro modo. Característica que inevitavelmente expande os diálogos e campos de criação. El tiempo en las raices, livro resultado da residência artística de Dani Eizirik em Oaxaca/México, traz apontamentos gráficos sobre a experiência do artista que acompanhou cinco famílias que produzem artesanalmente o mezcal em paralelo com a produção industrial. Essa relação cultural ultrapassa o tema e se transmite nos elementos e formas escolhidas na produção do livro. O miolo em papel pólen impresso em offset se contrapõe ao papel artesanal Amate Figura 1, 2: Daniel Elzirik, El tiempo en las raices. Riacho, Oaxaca/MX, 2018. 1. Ver: FEBVRE, Lucien; MARTIN, Henry-Jean. O aparecimento do Livro. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulistana - Hucitec, 1992. 2. Ver: CARDOSO, Rafael. O design brasileiro antes do design: aspectos da história gráfica, 1870- 1960. São Paulo: Cosac Naify, 2005. CAMARGO. Mário. Gráfica: arte e indústria no Brasil: 180 anos de História. 2. ed. São Paulo: Bandeirantes Gráfica. 2003.