A desintegração dos processos
inteiros de produção propostos
pela indústria se chocam com a
resistência das mãos que criam,
moldam e reproduzem. Esta
resistência se manifesta nas
múltiplas margens de produção
do impresso, as quais o limite
da página nem sempre delimita
o espaço de atuação. Com as
variações possíveis fora da
convenção, as formas do livro
inevitavelmente se ampliam e os
formatos vigentes se estendem. As
dobram do livro se encontram com a
multiplicidade de técnicas possíveis,
das quais uma parte depende da
execução manual. Do fazer com as
próprias mãos. Onde o contato sutil
entre o corpo humano e o corpo
do livro deixam marcas e traços
característicos. E assim a relação
híbrida gerada pelo embate dos
corpos, e a relação de sentido em
elementos da produção artesanal,
reage ao estritamente industrial e
ao estabelecido e segmentado pela
necessidade de expansão. Embora
o fazer manual seja comum nas
escolhas feitas por alguns artistas ou
editores independentes, encontram
antecedentes em diferentes
contextos pré-industriais tanto
na Europa como nas Américas. A
produção do livro, até a consolidação
do capitalismo editorial, é artesanal 1 .
A partir da revolução industrial, ao
contrário de uma ruptura definitiva
dos modos de produção, práticas
artesanais e industriais coexistem, e
em alguns momentos criam relações
híbridas, seja nos processos de
criação ou execução 2 . Característica
relativamente fácil de perceber,
por exemplo, se recordarmos a
diversidade de modos de produção
do impresso no contexto brasileiro.
O que segundo Mario Camargo,
permite que se faça uma história do
impresso apenas com as técnicas
vigentes no momento presente.
Como a xilogravura no cordel,
os ateliês de litogravura ou de
tipografia, práticas que encontram
paralelos em outros países da
América Latina. Os livros El tiempo
en las raices, respiro, Pequeno livro
de mal criações para crianças bem
criadas e dear lover, goodbye tem
algo intimamente relacionado,
quando se trata do embate dos
materiais, modos de produção
do livro, estratégias e encontros
possíveis, onde agora o industrial
e o artesanal geram um contexto
que ultrapassa as fronteiras de um
ou de outro modo. Característica
que inevitavelmente expande os
diálogos e campos de criação.
El tiempo en las raices, livro
resultado da residência artística
de Dani Eizirik em Oaxaca/México,
traz apontamentos gráficos
sobre a experiência do artista
que acompanhou cinco famílias
que produzem artesanalmente o
mezcal em paralelo com a produção
industrial. Essa relação cultural
ultrapassa o tema e se transmite
nos elementos e formas escolhidas
na produção do livro. O miolo em
papel pólen impresso em offset se
contrapõe ao papel artesanal Amate
Figura 1, 2: Daniel
Elzirik, El tiempo en
las raices. Riacho,
Oaxaca/MX, 2018.
1. Ver: FEBVRE, Lucien;
MARTIN, Henry-Jean.
O aparecimento do
Livro. São Paulo:
Editora Universidade
Estadual Paulistana
- Hucitec, 1992.
2. Ver: CARDOSO,
Rafael. O design
brasileiro antes do
design: aspectos da
história gráfica, 1870-
1960. São Paulo: Cosac
Naify, 2005. CAMARGO.
Mário. Gráfica:
arte e indústria no
Brasil: 180 anos de
História. 2. ed. São
Paulo: Bandeirantes
Gráfica. 2003.