Na tentativa de praticar esse
desconhecimento com o Outro,
percebo o quanto este movimento
é impreciso, uma vez que, não
dominamos essa compreensão em
nós mesmos, e em meio à dubiedade
buscamos a exatidão. Ao pensar
na arte, por exemplo, enquanto
geradora de emoções – afunilando
mais especificamente a análise para
a fotografia (que foi o meu contexto
de escolha para produzir este ensaio
artístico/filosófico) – é possível
entender essa incerteza a partir da
multiplicidade de afetos que ela
gera: 1) a emoção que impulsionou a
pessoa que escreveu a frase na parede;
2) a primeira afetação que essa frase
me causou; 3) o sentimento atual
de visualizá-la em fotografia; 4) a
afetação de quem acessa a fotografia
a partir da mediação deste texto; 5)
a experiência de fruição da fotografia
sem o texto; 6) a emoção da pessoa
que escreveu a frase se um dia
a vir na fotografia; 7) os afetos
que a frase ocasiona impressa
e expressa ainda na parede do
cotidiano da cidade; 8) oito se
deitado representa graficamente
o infinito, quantas possibilidades
mais seriam possíveis de traçar
sobre os trajetos das afetações
da arte? Como precisá-los
diante de suas imprecisões?
A partir desses trajetos enxergo
a emoção da linguagem da arte.
As relações intersubjetivas da
vida social constroem as nossas
emoções; e os afetos das relações
influenciam como sentimos e
atribuímos valor e significado às
coisas em nossa vida. Tal como a
linguagem da arte, as emoções são
influenciadas pela cultura em que o
indivíduo está inserido e exigem uma
aprendizagem. Dialogando com a
ideia de Calvino, “[...] ao se dar conta
da densidade e da continuidade do
mundo que nos rodeia, a linguagem
se revela lacunosa, fragmentária,
diz sempre algo menos com respeito
à totalidade do experimentável” 4 . A
partir do momento que as emoções
são da natureza do experimentável,
logo sua compreensão não acessa
a totalidade. É imprescindível,
portanto, uma arte DA emoção,
uma arte COM emoção e a emoção
NA arte; pois: “cada vida é uma
enciclopédia, uma biblioteca,
um inventário de objetos, uma
amostragem de estilos, onde tudo
pode ser continuamente remexido
e reordenado de todas as maneiras
possíveis” 5 . É na desordem da
emoção que se estabelece uma Outra
ordem. Fugimos constantemente
dessa reordenação e evitamos
exacerbadamente que a alteridade
presencie esse evento. Logo esse!
Que permite Outros sentidos
de afetos que precisamos.
3. FONSECA, Tania
M.G.; NASCIMENTO,
Maria L.; MARASCHIN,
Cleci. Pesquisar
na diferença: um
abecedário. Porto
Alegre: Sulina,
2012, p. 24.
4. CALVINO, Italo.
Seis Propostas para
o Próximo Milênio:
Lições Americanas.
São Paulo: Companhia
das Letras, 1990, p. 90.
5. CALVINO, Italo.
Seis Propostas para
o Próximo Milênio:
Lições Americanas. São
Paulo: Companhia das
Letras, 1990, p. 138.
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“
acontecer. Sinaliza a força de
expansão da vida e da atividade que
podemos viver. A tensão se instala.
O que se passa?” 3 Essa fotografia
me evoca esse questionamento:
o que se passou em mim, o que
me moveu a atravessar? Não seria
esse o mesmo questionamento
de quando uma emoção nos
arrebata? “O que se passa?”
senão esse grande
desconhecimento?