REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 93

Na tentativa de praticar esse desconhecimento com o Outro, percebo o quanto este movimento é impreciso, uma vez que, não dominamos essa compreensão em nós mesmos, e em meio à dubiedade buscamos a exatidão. Ao pensar na arte, por exemplo, enquanto geradora de emoções – afunilando mais especificamente a análise para a fotografia (que foi o meu contexto de escolha para produzir este ensaio artístico/filosófico) – é possível entender essa incerteza a partir da multiplicidade de afetos que ela gera: 1) a emoção que impulsionou a pessoa que escreveu a frase na parede; 2) a primeira afetação que essa frase me causou; 3) o sentimento atual de visualizá-la em fotografia; 4) a afetação de quem acessa a fotografia a partir da mediação deste texto; 5) a experiência de fruição da fotografia sem o texto; 6) a emoção da pessoa que escreveu a frase se um dia a vir na fotografia; 7) os afetos que a frase ocasiona impressa e expressa ainda na parede do cotidiano da cidade; 8) oito se deitado representa graficamente o infinito, quantas possibilidades mais seriam possíveis de traçar sobre os trajetos das afetações da arte? Como precisá-los diante de suas imprecisões? A partir desses trajetos enxergo a emoção da linguagem da arte. As relações intersubjetivas da vida social constroem as nossas emoções; e os afetos das relações influenciam como sentimos e atribuímos valor e significado às coisas em nossa vida. Tal como a linguagem da arte, as emoções são influenciadas pela cultura em que o indivíduo está inserido e exigem uma aprendizagem. Dialogando com a ideia de Calvino, “[...] ao se dar conta da densidade e da continuidade do mundo que nos rodeia, a linguagem se revela lacunosa, fragmentária, diz sempre algo menos com respeito à totalidade do experimentável” 4 . A partir do momento que as emoções são da natureza do experimentável, logo sua compreensão não acessa a totalidade. É imprescindível, portanto, uma arte DA emoção, uma arte COM emoção e a emoção NA arte; pois: “cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis” 5 . É na desordem da emoção que se estabelece uma Outra ordem. Fugimos constantemente dessa reordenação e evitamos exacerbadamente que a alteridade presencie esse evento. Logo esse! Que permite Outros sentidos de afetos que precisamos. 3. FONSECA, Tania M.G.; NASCIMENTO, Maria L.; MARASCHIN, Cleci. Pesquisar na diferença: um abecedário. Porto Alegre: Sulina, 2012, p. 24. 4. CALVINO, Italo. Seis Propostas para o Próximo Milênio: Lições Americanas. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 90. 5. CALVINO, Italo. Seis Propostas para o Próximo Milênio: Lições Americanas. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 138. 93 “ acontecer. Sinaliza a força de expansão da vida e da atividade que podemos viver. A tensão se instala. O que se passa?” 3 Essa fotografia me evoca esse questionamento: o que se passou em mim, o que me moveu a atravessar? Não seria esse o mesmo questionamento de quando uma emoção nos arrebata? “O que se passa?” senão esse grande desconhecimento?