2. DIDI-HUBERMAN,
Georges. Que emoção!
Que emoção?. São
Paulo: Editora
34, 2016, p. 28.
92
“
Na tentativa de cartografar o
surgimento de uma fotografia que
me é cara, comecei a refletir sobre as
coisas ditas e não ditas, sobre o texto
escrito e não escrito, o corpo e as
palavras, o corpo da cidade e
as palavras que nele habitam. Sobre
as corporificações do cotidiano, a
arte de existir em meio aos trajetos
da rotina – sobre o afeto da arte e
de como precisamos dele! Escolhi
essa fotografia para discorrer
exatamente sobre tudo isso, pois,
de todas as imagens que carrego em
minha mente, essa foi precisa. Os
motivos de sua precisão tateiam as
inquietações do como: como escrever
sobre os afetos da arte? Como
passar uma referência que é minha
para o Outro? Como traduzir em
palavras o sentimento e o contexto
em que essa imagem existiu?
Como tornar tudo isso possível?
A escolha da fotografia foi emotiva –
inundada pela influência do tempo.
Exatidão para mim é temporal.
Dentro do exato se encontra
o preciso. Preciso! Sempre me
incomodou essa palavra: como pode
significar duplamente necessidade
e exatidão? Por que precisamos?
O que precisamos? Percebo o tempo
permeando ambos os conceitos
(precisão/exatidão) e não consigo
decifrar a precisa necessidade da
existência deles – se o tempo não
existisse. O porquê da escolha dessa
fotografia tem a ver também com
afeto. Ela me afeta, pois é para mim
o acontecimento de uma mudança
de ordem. Mas que ordem? A ordem
do precisar! Foi o exato momento em
que questionei, em meio à rotina das
tarefas, a lógica de hierarquização
das coisas que preciso. Por que
preciso ir mais rápido para chegar a
tempo? Por que não atravessar a rua,
ir contra o fluxo do tempo, para ler
aquela frase e ser afetada por ela?
A primeira tentativa falha de
capturar a frase me remete à arte
— não a enxergo como algo isolado,
mas como algo que existe nas
coisas —, não a vejo, mas sei que ela
está lá. É assim também com o afeto
das emoções. Não vejo a emoção me
afetar, mas quando sou acometida
por ela sei que algo existe. Está
em mim? Sou eu? É algo externo?
As palavras de Didi-Huberman me
impulsionam a um princípio de
compreensão. Para ele, a emoção
é um movimento ao mesmo tempo
“em mim” — mas sendo algo tão
profundo que foge à razão — e
“fora de mim” — sendo algo que
me atravessa completamente para,
depois, se perder de novo. “É um
movimento afetivo que nos ‘possui’
mas que nós não ‘possuímos’ por
inteiro, uma vez que ele é em grande
parte desconhecido para nós” 2 .
O que é a emoção senão esse grande
emaranhado de desconhecimento?
No cerne dessas questões encontro
um diálogo com Gilles Deleuze,
quando afirma em uma de suas
entrevistas que a emoção não é
da ordem do eu, mas da ordem
do evento. Esse evento me afetou.
Ele ainda me afeta. A afetação
“denuncia que algo está acontecendo
e que nosso saber é mínimo nesse
O que é a emoção
emaranhado de