REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 92

2. DIDI-HUBERMAN, Georges. Que emoção! Que emoção?. São Paulo: Editora 34, 2016, p. 28. 92 “ Na tentativa de cartografar o surgimento de uma fotografia que me é cara, comecei a refletir sobre as coisas ditas e não ditas, sobre o texto escrito e não escrito, o corpo e as palavras, o corpo da cidade e as palavras que nele habitam. Sobre as corporificações do cotidiano, a arte de existir em meio aos trajetos da rotina – sobre o afeto da arte e de como precisamos dele! Escolhi essa fotografia para discorrer exatamente sobre tudo isso, pois, de todas as imagens que carrego em minha mente, essa foi precisa. Os motivos de sua precisão tateiam as inquietações do como: como escrever sobre os afetos da arte? Como passar uma referência que é minha para o Outro? Como traduzir em palavras o sentimento e o contexto em que essa imagem existiu? Como tornar tudo isso possível? A escolha da fotografia foi emotiva – inundada pela influência do tempo. Exatidão para mim é temporal. Dentro do exato se encontra o preciso. Preciso! Sempre me incomodou essa palavra: como pode significar duplamente necessidade e exatidão? Por que precisamos? O que precisamos? Percebo o tempo permeando ambos os conceitos (precisão/exatidão) e não consigo decifrar a precisa necessidade da existência deles – se o tempo não existisse. O porquê da escolha dessa fotografia tem a ver também com afeto. Ela me afeta, pois é para mim o acontecimento de uma mudança de ordem. Mas que ordem? A ordem do precisar! Foi o exato momento em que questionei, em meio à rotina das tarefas, a lógica de hierarquização das coisas que preciso. Por que preciso ir mais rápido para chegar a tempo? Por que não atravessar a rua, ir contra o fluxo do tempo, para ler aquela frase e ser afetada por ela? A primeira tentativa falha de capturar a frase me remete à arte — não a enxergo como algo isolado, mas como algo que existe nas coisas —, não a vejo, mas sei que ela está lá. É assim também com o afeto das emoções. Não vejo a emoção me afetar, mas quando sou acometida por ela sei que algo existe. Está em mim? Sou eu? É algo externo? As palavras de Didi-Huberman me impulsionam a um princípio de compreensão. Para ele, a emoção é um movimento ao mesmo tempo “em mim” — mas sendo algo tão profundo que foge à razão — e “fora de mim” — sendo algo que me atravessa completamente para, depois, se perder de novo. “É um movimento afetivo que nos ‘possui’ mas que nós não ‘possuímos’ por inteiro, uma vez que ele é em grande parte desconhecido para nós” 2 . O que é a emoção senão esse grande emaranhado de desconhecimento? No cerne dessas questões encontro um diálogo com Gilles Deleuze, quando afirma em uma de suas entrevistas que a emoção não é da ordem do eu, mas da ordem do evento. Esse evento me afetou. Ele ainda me afeta. A afetação “denuncia que algo está acontecendo e que nosso saber é mínimo nesse O que é a emoção emaranhado de