1. Em entrevista para
Shipley (2010, p. 654)
2. Exposição coletiva
realizada em 2018
no Agora’s Platform
for Latin American
Artivists, em Berlim.
Obras: (1) Relações
coloniais, instalação da
porto-riquenha Melanie
Rivera Flores. (2) Miss-
take, performance da
brasileira Andressa
Cartegiani. (3) Eu sou
o Portfólio, auto-
tatuagem ao vivo da
brasileira Pêdra Costa
3. insurgencias.net
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Por meio de imagens falamos de
quatro coletivos politicamente
engajados, que buscam mudança
social e representam formas de
resistência e re-existência. A atuação
destes coletivos, assim, podem ser
descritas como insurgentes, no sentido
de rebelarem-se como resposta
a situações que ferem os direitos
humanos, promovendo uma reflexão
sobre o direito à livre expressão e a
questões relacionadas a gênero, ao
racismo, dentre outras. Para falar de
seu potencial em provocar mudanças
epistemológicas e socioculturais,
emprestamos a expressão “criatividade
da prática” apresentada por Mbembe
(2010) 1 , como “as formas com as
quais as sociedades compõem e
inventam a si próprias no presente”.
o contexto contemporâneo que a
prática possibilita é essencial para
refletirmos sobre possibilidades
de atuação de artistas e designers,
bem como sobre a pesquisa e
o ensino nas Artes e no Design
(além de outras áreas).
Mbembe (2010) também evidencia
que precisamos entender “o social”
como uma questão de composição
e experimento; e não tanto como
uma questão de ordem e contratos.
Perceber a capacidade das sociedades
em produzir continuamente algo novo
e singular, ainda não pensado e que
ainda está para ser acomodado dentro
de sistemas e linguagens conceituais
estabelecidos, é uma condição
para a possibilidade de qualquer
teoria, aponta o autor (ibidem). ¡n[s]urgênc!as 2 nasce em 2018
com 12 artistas latino-americanos
politicamente engajados, que
também são migrantes, morando em
Berlim. Esse coletivo aborda gênero,
raça, censura política e liberdade
de expressão, dentre outros temas.
A iniciativa foi idealizada pela
curadora Paz Ponce, por meio da
Agora, plataforma para artivistas
latino-americanos, e abriga diversas
modalidades de projetos. O objetivo
é abrir espaço para compartilhar a
diversidade de processos artísticos
e abordagens que se manifestam
sobre o tópico de insurgências,
referindo-se ao sentido de urgência
e emergência de práticas artísticas
socialmente conscientes, bem como
posições ativistas do sul. A troca
intensa entre os artistas relacionam-
se tanto às práticas e “histórias do
sul” — às vezes compartilhadas,
outras muitas vezes desconhecidas
—, quanto ao desenvolvimento de
estratégias para produzir arte e viver
como artista na diáspora. Esta troca
está relacionada a estratégias de
sobrevivência, como evidencia uma
das artistas do coletivo, Pêdra Costa,
em entrevista à Mombaça (2019):
“Não acho que [no Brasil] deixamos o
período colonial. Nós continuaremos
a lutar e sobreviver com ferramentas
que viemos desenvolvendo, com
conhecimento invisível”.
É sobre este aspecto que a pesquisa
sobre os coletivos é especialmente
importante. Entender as iniciativas
e os novos entendimentos sobre As conversas internas da rede de
artistas acontecem em espanhol
e português. Esta escolha idiomática
reflete o posicionamento insurgente
O autor completa que estas práticas
estão sempre adiante de qualquer
conhecimento que podemos produzir
sobre elas. Podemos dizer, então, que
a “criatividade prática” constitui um
tipo de saber, de natureza prática
e coletiva, fortemente situado no
contexto em que as comunidades
vivem e que (re-)criam para si.