REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 76

1. Em entrevista para Shipley (2010, p. 654) 2. Exposição coletiva realizada em 2018 no Agora’s Platform for Latin American Artivists, em Berlim. Obras: (1) Relações coloniais, instalação da porto-riquenha Melanie Rivera Flores. (2) Miss- take, performance da brasileira Andressa Cartegiani. (3) Eu sou o Portfólio, auto- tatuagem ao vivo da brasileira Pêdra Costa 3. insurgencias.net 76 Por meio de imagens falamos de quatro coletivos politicamente engajados, que buscam mudança social e representam formas de resistência e re-existência. A atuação destes coletivos, assim, podem ser descritas como insurgentes, no sentido de rebelarem-se como resposta a situações que ferem os direitos humanos, promovendo uma reflexão sobre o direito à livre expressão e a questões relacionadas a gênero, ao racismo, dentre outras. Para falar de seu potencial em provocar mudanças epistemológicas e socioculturais, emprestamos a expressão “criatividade da prática” apresentada por Mbembe (2010) 1 , como “as formas com as quais as sociedades compõem e inventam a si próprias no presente”. o contexto contemporâneo que a prática possibilita é essencial para refletirmos sobre possibilidades de atuação de artistas e designers, bem como sobre a pesquisa e o ensino nas Artes e no Design (além de outras áreas). Mbembe (2010) também evidencia que precisamos entender “o social” como uma questão de composição e experimento; e não tanto como uma questão de ordem e contratos. Perceber a capacidade das sociedades em produzir continuamente algo novo e singular, ainda não pensado e que ainda está para ser acomodado dentro de sistemas e linguagens conceituais estabelecidos, é uma condição para a possibilidade de qualquer teoria, aponta o autor (ibidem). ¡n[s]urgênc!as 2 nasce em 2018 com 12 artistas latino-americanos politicamente engajados, que também são migrantes, morando em Berlim. Esse coletivo aborda gênero, raça, censura política e liberdade de expressão, dentre outros temas. A iniciativa foi idealizada pela curadora Paz Ponce, por meio da Agora, plataforma para artivistas latino-americanos, e abriga diversas modalidades de projetos. O objetivo é abrir espaço para compartilhar a diversidade de processos artísticos e abordagens que se manifestam sobre o tópico de insurgências, referindo-se ao sentido de urgência e emergência de práticas artísticas socialmente conscientes, bem como posições ativistas do sul. A troca intensa entre os artistas relacionam- se tanto às práticas e “histórias do sul” — às vezes compartilhadas, outras muitas vezes desconhecidas —, quanto ao desenvolvimento de estratégias para produzir arte e viver como artista na diáspora. Esta troca está relacionada a estratégias de sobrevivência, como evidencia uma das artistas do coletivo, Pêdra Costa, em entrevista à Mombaça (2019): “Não acho que [no Brasil] deixamos o período colonial. Nós continuaremos a lutar e sobreviver com ferramentas que viemos desenvolvendo, com conhecimento invisível”. É sobre este aspecto que a pesquisa sobre os coletivos é especialmente importante. Entender as iniciativas e os novos entendimentos sobre As conversas internas da rede de artistas acontecem em espanhol e português. Esta escolha idiomática reflete o posicionamento insurgente O autor completa que estas práticas estão sempre adiante de qualquer conhecimento que podemos produzir sobre elas. Podemos dizer, então, que a “criatividade prática” constitui um tipo de saber, de natureza prática e coletiva, fortemente situado no contexto em que as comunidades vivem e que (re-)criam para si.