Conheci Arlindo numa tarde de maio.
Eu cheguei, ele estava sentado,
escondido em um mundo
que ninguém vê.
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Foi muito gentil quando eu disse
que queria entrevistá-lo e saber
mais sobre tipografia. Algo se
iluminou no olhar dele; aquela
vontade de ensinar a alguém
interessado em ouvir o que ele
tinha a dizer. E ele falou muito.
Falou sobre sua trajetória, sobre
os tipos e até ligou as máquinas.
Seu Arlindo tinha um sorriso de
menino, por isso eu tive que escrever
uma poesia sobre ele e seu sorriso,
sobre seu orgulho de ser quem
era, pois era ali, naquele cantinho
empoeirado na Ladeira do Taboão,
que ele tinha se encontrado.
Seu Arlindo tinha me falado que
trabalhava com tipografia desde
1978, quando entrou no curso
do SENAI, e desde então vive
de impressão tipográfica, já há
mais de 40 anos. Trabalhou em
várias gráficas, como a Gráfica
Central e a Gráfica Melo e Melo.
Atualmente recebe pedidos de
cartões de visita, calendários, e,
principalmente, notas fiscais.
Arlindo não deixou de mencionar o
processo que a tipografia enfrenta
perante o avanço da tecnologia das
gráficas rápidas... e isso o entristeceu.
Ele contou que as demandas vêm
diminuído há cerca de 10 anos,
sem perspectiva de mudança. Além
disso, seus filhos não quiseram
seguir o mesmo ramo que ele,
assim, Arlindo previu que a herança
tipográfica terminará com ele.
Estive perto também quando ele
imprimiu alguns de seus trabalhos.
Senti a vibração das máquinas, o som,
tudo ligado. Arlindo desenvolveu um
trabalho demorado, minucioso, afetivo.
O cliente escrevia o que queria e ele
montava tudo. Um trabalho criativo
de diagramação, de pensar espaços,
entrelinhas. Foi interessante vivenciar
a relação tão particular que Arlindo
desenvolvia com as máquinas, a
rapidez, o senso de diagramação. Uma
relação de afeto, como se cada pedaço
da gráfica fosse parte dele e ele, dela.
Justamente por isso,
como poderia ele ir embora
se era lá onde havia se encontrado?
Achado um mundo seu,
sustentado de infinitos,
de tipos.