REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 66

Conheci Arlindo numa tarde de maio. Eu cheguei, ele estava sentado, escondido em um mundo que ninguém vê. 66 Foi muito gentil quando eu disse que queria entrevistá-lo e saber mais sobre tipografia. Algo se iluminou no olhar dele; aquela vontade de ensinar a alguém interessado em ouvir o que ele tinha a dizer. E ele falou muito. Falou sobre sua trajetória, sobre os tipos e até ligou as máquinas. Seu Arlindo tinha um sorriso de menino, por isso eu tive que escrever uma poesia sobre ele e seu sorriso, sobre seu orgulho de ser quem era, pois era ali, naquele cantinho empoeirado na Ladeira do Taboão, que ele tinha se encontrado. Seu Arlindo tinha me falado que trabalhava com tipografia desde 1978, quando entrou no curso do SENAI, e desde então vive de impressão tipográfica, já há mais de 40 anos. Trabalhou em várias gráficas, como a Gráfica Central e a Gráfica Melo e Melo. Atualmente recebe pedidos de cartões de visita, calendários, e, principalmente, notas fiscais. Arlindo não deixou de mencionar o processo que a tipografia enfrenta perante o avanço da tecnologia das gráficas rápidas... e isso o entristeceu. Ele contou que as demandas vêm diminuído há cerca de 10 anos, sem perspectiva de mudança. Além disso, seus filhos não quiseram seguir o mesmo ramo que ele, assim, Arlindo previu que a herança tipográfica terminará com ele. Estive perto também quando ele imprimiu alguns de seus trabalhos. Senti a vibração das máquinas, o som, tudo ligado. Arlindo desenvolveu um trabalho demorado, minucioso, afetivo. O cliente escrevia o que queria e ele montava tudo. Um trabalho criativo de diagramação, de pensar espaços, entrelinhas. Foi interessante vivenciar a relação tão particular que Arlindo desenvolvia com as máquinas, a rapidez, o senso de diagramação. Uma relação de afeto, como se cada pedaço da gráfica fosse parte dele e ele, dela. Justamente por isso, como poderia ele ir embora se era lá onde havia se encontrado? Achado um mundo seu, sustentado de infinitos, de tipos.