REVISTA LIDER COACH | Novembro | 40
Esta flexibilização se realiza através de diferentes procedimentos: o movimento de disciplinas que se somam na tarefa de dar conta de um objeto (o ser humano por exemplo) que, pela sua natureza multifacetada, exigiria diferentes olhares (multidisciplinaridade), ou, de outra forma, o movimento de criação de uma zona de interseção, ou seja, um "diálogo" entre elas, para a qual um objeto específico seria designado (interdisciplin-aridade).
Vale aqui uma diferença radical das noções de intersecção e intercessão: no primeiro caso, a relação é de conjugação de dois domínios na constituição de um terceiro, que se espera estável, idêntico a si e para o qual pode-se definir um objeto próprio. É o caso, como acima apontado, da interdisciplinaridade.
No segundo, que é o caso da transdisciplinari-dade: a relação que se estabelece entre os termos que se intercedem é de interferência, ou melhor, de intervenção através do "atravessamento desestabilizador" de um domínio qualquer (disciplinar, conceitual, artístico, sócial, político, espiritual etc.) sobre outro.
Na interdisciplinaridade, portanto, temos a gênese de uma nova identidade, enquanto na transdisciplinaridade temos um processo de diferenciação que não tende à estabilidade.
Porém, o que vemos como efeito seja da multi-disciplinaridade, seja da interdisciplinaridade - é a manutenção das fronteiras disciplinares, dos objetos e, especialmente, dos sujeitos desses saberes.
A partir desse ponto a noção de transdisciplinaridade vai ganhando novos contornos. Não se trata de abandonar o movimento criador de cada disciplina, mas sim de fabricar intercessores, fazer série, agenciar, interferir.
Frente às ficções preestabelecidas, opor o discurso que se faz com os intercessores. Não uma verdade a ser preservada e/ou descoberta, mas sim que deverá ser criada a cada novo domínio.
Os intercessores se fazem, então, em torno dos movimentos - esta é a aliança possível de ser construída quando falamos de transdisciplina-ridade e quando falamos de Coach, utilizamo-nos dessa preciosa ferramenta.
Problematizar os limites de cada disciplina é argui-la em seus pontos de congelamento e universalidade. Tratar-se-ia, nesta perspectiva transdisciplinar, de normatizar as fronteiras, torná-las instáveis. Caotizar os campos, desestabilizando-os ao ponto de fazer deles planos de criação de outros objetos-sujeitos, é a aposta da transdisciplinaridade.
As divisões ou mudanças de terminologia que fomos progressivamente fazendo nos levam agora a alguns questionamentos:
Se tivermos os olhos postos no setor de saúde em sua relação com os outros setores, será que necessitamos de tantas divisões na medicina (preventiva, comunitária, social) e na saúde (individual, pública, coletiva)?
Será que em vez de falarmos na nova saúde pública, num novo paradigma para o ensino médico, num outro para o sistema de atenção à saúde, não devemos falar de um só paradigma, aglutinador e integrativo, que nos permita unir forças dispersas e religar partes que nunca deveriam ter sido separadas, porém mantendo sua identidade própria?