REVISTA LÍDER COACH Revista Líder Coach NOVEMBRO DE 2015 #11 | Page 10

LIDERANÇA SALVADORA!?

Andrea Gerreiro

REVISTA LIDER COACH | Novembro | 10

Muito se fala em “liderança servidora”, expressão cunhada por James C. Hunter em sua obra, mundialmente famosa, “O Monge e o Executivo. Uma história sobre a essência da liderança”. Proponho ir um pouco além. Para mim, o verbo “servir” pode induzir o leitor à ideia de subserviência, distanciada do sentido original que é “trabalhar em favor de alguém”. Também porque me alegra ver pessoas recuperando o brilho no olhar e, creio que isso acontece quando tocamos o coração do outro fazendo despertar algo adormecido – um sonho, por exemplo – ou conferindo-lhe um sentido à vida. Para mim, trata-se de uma espécie de “salvação em mão dupla”. Neste sentido, gostaria de enfatizar meu entendimento acerca dos termos “salvação” e “salvamento”. Embora sejam sinônimos, este último remete-nos a imagem de um ato heroico no qual se livra alguém de uma ameaça ou um perigo iminente. Porém, seria uma insanidade propor algo assim. A salvação a que me refiro é muito mais despretensiosa e está relacionada à capacidade de influenciar pessoas. Exercer a “liderança salvadora” está, portanto, ao alcance de qualquer pessoa de bem. Literalmente, basta querer!

As histórias que compartilho a seguir são reais e aclaram o conceito.

Durante uma corrida de táxi, observei o motorista demasiadamente quieto e sisudo. Tentei por diversas vezes “puxar assunto”, sem sucesso. Quando me preparava para desembarcar, o homem pediu desculpas por não me conferir atenção e revelou que planejava matar a enteada naquela mesma noite. Contou-me que a jovem era usuária de drogas pesadas e que estava aliciando os irmãos menores, filhos dele. Estava desolado, mas decidido a tomar uma atitude drástica. Eram quase duas horas da madrugada quando desembarquei do táxi. Não fiz muito além de ouvir e pedir ao homem que refletisse sobre as consequências na própria vida e na dos outros a sua volta. Anos depois, ouvi de uma senhora que um relato semelhante. Ela questionara a postura do médico que a atendia visivelmente alterado e agressivo. Em vez de rebatê-la por sua audácia, o homem, choroso, revelou que estava depressivo e desejava cometer suicídio. A mulher prontificou-se a ouvi-lo e, por fim, saiu da consulta certa de que o médico estava curado ou, pelo menos, em processo de cura. Em ambos os casos, acredito que vidas foram salvas, famílias foram salvas. Sobretudo, nossas vidas foram salvas, pois conferiu-nos um sentido maior e mais bonito!

Em alguns momentos, ouvir as pessoas é o suficiente para se obter resultados surpreendentes. No ambiente corporativo, observamos gestores demasiadamente focados em processos e pouco interessados nas pessoas que dão vida à organização. Vamos dizer que a “salvação” aqui referida pode ser “simplesmente” ajudar um colaborador a reencontrar sua autoestima, sua motivação ou sua coragem.

Mas para isso, é preciso investir tempo nas relações humanas, na pessoa “além do registro no Quadro Funcional”. Alguns gestores são contrários a esta conduta. Dizem que a aproximação abre espaço para uma intimidade indesejada. A esses, vale lembrar que existem técnicas como “feedback” e “feedforward” que permitem ao gestor expor suas percepções, conhecer o ponto de vista dos colaboradores e traçar planos conjuntamente sem comprometer a autoridade necessária para o exercício da função (pelo contrário!).