Vivência que pode produzir mudança profunda no interior do homem e o leva à integração pessoal e à integração com outros homens
No escritório de uma multinacional, um executivo analisa a proposta de uma pequena cooperativa dedicada à produção de hortifrutigranjeiros livres de agrotóxicos e adubos químicos. Na manhã deste dia, participara da reunião da diretoria cuja pauta dedicava-se a definir estratégias para reduzir os gastos da empresa. O contrato impactaria diretamente o custo de produção. Apesar da nova diretriz e do avançado da hora, o homem considerava fortemente a possibilidade de instalar uma planta industrial para o beneficiamento de alimentos orgânicos.
No interior do Rio Grande do Sul, funcionários de uma fábrica de calçados comemoram o êxito do mutirão organizado para consertar os estragos provocados por um temporal à escola pública da região. Estão todos exaustos e fétidos após um longo dia de voluntariado. Todavia, a satisfação de saber que, na manhã seguinte, as crianças teriam aula é imensa até para aqueles que não têm filhos.
No Continente Africano, um menino de doze anos ensina aos aldeões a construir cisternas para armazenar a água da chuva. Ele aprendera observando o pai, engenheiro ambiental, em seu trabalho. Amigos, vizinhos e colegas ajudaram-no a levantar os recursos financeiros necessários para custear o projeto e a viagem do interior dos Estados Unidos àquele lugar isolado por décadas de disputas tribais.
O que essas histórias têm em comum? Qual a relação desses relatos com a questão da liderança? E o que isso tudo tem a ver com inteligência espiritual?
Inicialmente, é preciso diferenciar os termos “religiosidade” e “espiritualidade”. O primeiro se refere a um sistema ou práticas religiosas que se focam em rituais e símbolos que servem para facilitar a crença em algo inexplicável e que recebem a denominação de Deus e suas respectivas derivações, “força/poder maior” e “verdade absoluta” (Oliveira, Pascalicchio & Primi, 2011). Ao passo que, segundo Giovanetti (2005), espiritualidade significa a possibilidade de uma pessoa mergulhar em si mesma. Para este autor, espiritualidade designa toda vivência que pode produzir mudança profunda no interior do homem e o leva à integração pessoal e à integração com outros homens. Trata-se, portanto, da relação dessa pessoa e o sagrado ou transcendente sem que ela tenha que necessariamente utilizar algum ritual ou símbolo (Moreira-Almeida, Lotufo Neto & Koenig, 2006).
O conceito de inteligência é igualmente complexo, pois ela pode ser de vários tipos, apresentando diferentes níveis de profundidade (Okada, 1949). Por muitas décadas, o quociente de inteligência (QI) era utilizado como a medida para determinar a capacidade cognitiva de cada indivíduo. Somente no final do século passado, Goleman (1995) apresenta – em sua obra “Inteligência emocional: A teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente” – um novo conceito, deixando claro que não basta a pessoa ser um gênio se não souber reconhecer e gerenciar as emoções. No início do Terceiro Milênio, passaram a ser amplamente difundidos os estudos que apontam para o quociente relacionado à inteligência espiritual, definida por Wolman (2001) como sendo a capacidade de transcendência que envolve diferentes habilidades, como a disposição de entrar em contato com o verdadeiro self; o investimento em atividades, eventos e relacionamentos repletos de senso altruísta e a utilização de recursos espirituais para resolver problemas na vida.
Os casos apresentados na introdução deste artigo ilustram o esforço do ser humano em satisfazer a necessidade de conferir um sentido mais profundo de significado e propósito na comunidade e no mundo.
LIDERANÇA E
INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL
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