REVISTA LÍDER COACH MARÇO DE 2015 # 3 | Página 14

Gênero é um assunto que diz respeito ao conjunto das relações sociais. Por isso, pensar “gênero” significa pensar de forma mais ampla o mundo do trabalho, da família, da política, da religião, da cultura e, naturalmente, do meio ambiente.

Inicio nosso bate-papo com um “Mãezinha, muito obrigada por tudo!”

É que antes de eu sequer conhecer o sentido da palavra liderança ou sonhar em conduzir algum grupo, minha mãezinha já era a maior e mais próxima referência de liderança feminina que tive. Peço-lhe licença para expressar minha admiração e gratidão como filha e aprendiz de feiticeira... Ah sim... porque nós mulheres vivemos equilibrando as mãos, praticamente fazendo mágicas para dar conta de tanta vida!

Na década de 1970, Dona Zélia era o que hoje chamaríamos de uma microempresária. Como cabeleireira e proprietária de um salão de bairro, ela nos criou enquanto cortava os cabelos de alguma fregueza, vendia uma peça de roupa ou generosamente ouvia os desabafos de suas amigas/clientes. Decerto foi por isso que ao se filiar a uma religião de origem japonesa, ela se encantou por uma divindade chamada “Kannon de Mil braços”. Mais tarde me confiou que gostava muito desta Kannon porque se identificava com sua imagem conciliadora de tantos afazeres. Também rogava a Kannon que abençoasse seu “instrumento de trabalho”. Na verdade, seu próprio braço debilitado ao longo dos anos em decorrência de tanto esforço repetitivo.

Nesta época que antecede a comemoração do Dia das Mulheres, poderia lembrar das nossas várias funções mães, esposas, companheiras, amigas, trabalhadoras ou enaltecer nossa capacidade de concatenar tantas coisas. Só que não. Isso a imprensa já faz; o comércio agradece.

Prefiro dividir com as(os) leitoras(es) alguns conhecimentos adquiridos no campo dos estudos de gêneros. Foram experiências magníficas ao longo de três anos em que coordenei um grupo de pesquisa-ação intitulado “Mulheres de Parelheiros como agentes de transformação socioambiental” na zona sul de São Paulo, financiado pelo CNPq.

O objetivo central do projeto “Mulheres de Parelheiros” foi o desenvolvimento de propostas voltadas para gênero, organização, empreendedorismo e participação social. A “Arte da Ikebana”, “Arte da Cerâmica” e “Arte da Agricultura Natural” foram os principais instrumentos de sensibilização com vistas ao cultivo da criatividade, capacidade inovadora, elevação da auto-estima além de sociabilidade intragrupal. Criamos uma metodologia para a formação de agentes de transformação socioambiental capazes de superar o papel passivo e submisso que a sociedade criou para o exercício da dominação e da imposição masculinas, sobretudo no caso de mulheres com menor grau de instrução e poder aquisitivo.

Ao longo do doutorado, tomara conhecimento das relações de gênero campo das ciências da religião. Mas não imaginava o quanto a consciência deste assunto é importante em múltiplos aspectos da vida cotidiana de todas/os nós. Mulheres e homens; jovens e adultos; brancos, negros e outros coloridos; pobres e ricos de várias classes...

Mas o que é gênero?

Normalmente, usamos a palavra gênero para distinguir “masculino” e “feminino” ou para falar de “igualdade de gêneros”. Contudo, o conceito de gênero é muito mais amplo. Ele serve para explicar as relações entre homens e mulheres. Trata-se, portanto, de um conceito relacional que não prioriza um ou outro. Assim sendo, diferente do senso comum, gênero não é coisa exclusiva de mulheres.

Adaptação a novas realidades: assunto para homens e mulheres

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