E muitas vezes, parece ser impossível conciliar os dois interesses. Um exercício simples para determinar se os atos e decisões do dia-dia de um líder são ou não éticos, seria de se perguntar (antes de praticar o ato ou tomar a decisão): se minha decisão se tornasse publico, causariam embaraço ou prejuízo para mim ou para a empresa? Se a resposta for positiva é um bom indício de que aquela decisão provavelmente não é dos mais éticos e que um alternativo mais ético deve ser buscado. Pois, muito que é antiético também é proibido por lei com penalidades pecuniárias e em alguns casos até penas de detenção, como no caso da discriminação (inclusive, sexual).
Acabei de assistir o discurso de Emma Watson para a ONU, legendado em português no youtube. HeforShe é a nova campanha da ONU liderada por essa recém-indicada Embaixadora da Boa Vontade ONU Mulher. Com a voz embargada de emoção Emma Watson convoca os homens e rapazes a participarem dessa campanha para acabar com a discriminação de gênero a nível político, econômico e social. Seu discurso de pouco mais de onze minutos lamenta a deturpação do termo “feminista” e apela aos homens para participarem no esforço para alcançar igualdade de gêneros ainda neste século.
Emma Watson apresentou umas boas razões pelas quais os homens como indivíduos deveriam participar dessa campanha, mas porque é que os lideres nas empresas deveriam se preocupar com isso? A resposta mais simples e direta do ponto de vista de Compliance & Ética é porque a lei as obriga, a sociedade exige e sempre é melhor cumprir a lei por vontade própria do que ser compelida pelos tribunais com altos custos e danos à imagem da empresa. Sem dúvida, o cuidado com a imagem surte efeitos mais positivos e lucrativos para a emrpesa.
Na minha experiência em empresas nacionais, multinacionais e escritórios de advocacia, já senti na pele e ouvi inúmeros casos de discriminação sexual em trabalho intelectual, não só no Brasil, mas nas Américas (Norte e Sul), Europa, Oceania e especialmente no Oriente e Oriente Médio. As maiores reclamações das funcionárias sempre foram de remuneração desigual por serviços iguais, seguida por serviços repetitivos ou pouco interessantes para as relegadas à lista de “risco de gravidez” e suas desagradáveis (para o bottom line da empresa) consequências, e por último a questão da promoção. Enquanto no caso de escolhas entre candidatos iguais, mas de sexos diferentes, noto ainda uma inclinação a optar pelos homens, sem, contudo, nenhuma explicação maior dos optantes além do, ‘acho que vai ser melhor.
Recordo-me uma vez que foi minha a tarefa de preparar uma apresentação para clientes da Arábia Saudita. Animada pelo desafio, me empenhei durante semanas em fazer um trabalho claro, conciso e esclarecedor, sem ser maçante - tarefa um tanto difícil quando se trata da lei. Quando avisei ao meu diretor que havia terminado, após o ter lido, me parabenizou pelo excelente trabalho. Aí perguntei quando é que seria a apresentação; recebi uma surpresa desagradável, eu deveria passar o trabalho feito a um colega (do sexo masculino) sem nenhuma experiência na área e anos luz meu júnior que faria a apresentação ao cliente. Atitude estranha, até para a época. Quando indagada a razão, ele desviou seu olhar para a janela, com vista para o saguão, e meio sem graça disse, ‘sabe como são os árabes, eles não aceitariam participar de uma reunião com uma mulher apresentando soluções para seus problemas’. Entreguei o trabalho para o colega, e lhe preparei para as possíveis perguntas. Já se passaram vinte anos desse evento, mas me lembro até hoje a raiva e humilhação que passei naquele dia. Todo aquele esforço e os frutos do meu trabalho usado por outro, porque como pessoa era menos importante do que a discriminação sexual do cliente. Não recebi nem crédito de autoria e o jovem que fez a apresentação recebeu uma promoção pelo seu (meu) trabalho brilhante.
Do ponto de vista ético, essa historinha é uma amostra de como o dinheiro falou mais alto para a empresa, na pessoa de seu diretor jurídico ao optar por não arriscar ofender o cliente e, possivelmente, perder o trabalho de um funcionário que aceitou uma promoção de mérito por trabalho de outro; de uma funcionária que aceito seu desmerecimento como fato da vida, sem reclamar.
Já se passaram mais de vinte anos e as coisas mudaram, e muito. Hoje em dia, as empresas andam numa linha muito mais tênue entre fazer qualquer coisa para o seu lucro e se curvar às exigências éticas e legais. Muito do que é antiético também é proibido por lei - com pena-
REVISTA LIDER COACH | Julho | 17
Ann Birosel
caso II - Ela por eles
Ann Birosel | Americana com 37 anos de Brasil. Advogada com mais de 20 anos em gerência de área jurídica e compliance de empresas multinacionais, especializando em direito empresarial e contratual. Revisora e tradutora de artigos das áreas jurídica e financeira. Professora de inglês para estrangeiros. Aulas particulares de literatura inglesa e americana e linguagem jurídica.
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