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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Ela sabe que é lorota, o hálito de cerveja barata denuncia. Mas dá uma
moral.
A catedral cantarola que são dez horas. Diferente das outras noites, ELE
retorna ao local de “trabalho” na Rua Turíbio de Olivença, agora Rua Amarela, de
banho tomado, barba feita, perfumado, outros trajes. Calça, camisa, relógio de
pulso. Nos pés, as inseparáveis sandálias de couro cru, novinhas. Lembrança das
Alagoas.
Os seres do lugar, jogadores, ladrões, loucos de toda a sorte, não
conhecem o malandro, que só está aqui durante o dia. ELA também jamais lhe
notara a presença, pois durante o dia dorme, enquanto ELE é flanelinha com
espaço cativo. Histórias de vida semelhantes, ELE do dia, ELA da noite, não se
conhecem. O sino sussurra onze vezes para anunciar que a Rua Amarela pode
ferver mais uma hora. Quisera fosse um baile, eles têm uma hora para se
conhecerem.
O malandro intimidado com o galanteador que não desgruda dela. Passa ao
lado, pelas costas, gesticula, e ninguém lhe percebe a intenção. Ela entende a
aliança na mão esquerda do inoportuno namorador, e pergunta se ele é casado.
Um indiferente virar as costas e sair. Tem início o encontro que há séculos estava
marcado, sem nuances de arrancar suspiros de moças casadoiras, quiçá um final
feliz. Momento de duas almas cândidas se tocarem, dançarem como se houvesse
música, e que os demais noctívagos fossem convivas na festa. ELE é malandro do
dia, não conhece da noite, e tudo parece tão óbvio. ELA tem conhecimento da
noite e do lugar, vantagem indiscutível. Sem regras, passam-se os minutos, dez,
vinte, meia hora naquela dança sem orquestra, abraçados no meio de um
borbulhar de gatunos, viciados em roubar, agredir, é o crime.
O relógio já se foi, quarenta minutos depois de iniciada a valsa fantasiosa,
carteira e camisa arrancadas sem dó ou piedade, e restam dez minutos. Mas não
se soltam, dançam como se fosse o fim de seus dias, música imaginária. ELA,
num arroubo de honestidade, é ousada o bastante para desafiar o bando, alerta o
malandro para que se solte dela e corra até a viela de cima, fuja dali, pois é
desastroso o que vem por aí.
Um beijo.
Despretensioso e ingênuo como todo o clássico recontado, ao som das doze
badaladas do sino da catedral, e ele dispara rumo à salvação, perseguido pela
multidão em fúria. Aquelas sandálias de tradição até que são práticas, mas não
para uma fuga em estado de necessidade. Na confusão de agressões e tentarem
tirar-lhe o que já não tem, a sandália esquerda se solta do pé, fica por ali.
Meia-noite e meia, todos se foram com a chegada da polícia, que finalizaria
aquela balburdia, para a manutenção da ordem. No meio da sujeira toda, um
silêncio soberano, iluminado pelo amarelo da rua, e uma sandália de tiras de
couro de número indeterminado. Sem o esperado “e viveram felizes para
sempre”, porque não se sabe o que foi feito daqueles dois, a história há de ser
recontado daqui há muitas luas, e outras tantas primaveras.
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