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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Cinderela da Rua Amarela
Plinio Giannasi
Regente Feijó/SP
ELE é retirante, veio num trem das Alagoas até aqui, algumas décadas
passadas.
Guardador de carros, aceita qualquer quantia por um espaço público que
tomou para si, quando outro desafortunado foi flagrado por extorsão. E não é
questionado, melhor não contrariar. Sem nome, tal e qual a ocupação que lhe
sobrou.
Malandro conhecidíssimo.
Contam que quando chegou ainda era criança, com relatos de fugas de
instituições, famílias substitutas, e que até de um convento de freiras havia sido
expulso. Sabe-se que é adulto devido aos anos que está aqui, porque o tamanho
aumentou pouco desde a chegada. A vestimenta não passa de uma bermuda
surrada e camisa de campanha política, mistura tosca daquilo que consegue nas
entidades assistenciais, associações, igrejas. Nos pés, sandálias de tiras de couro
cru, típicas da terra natal. Comprou na feira, com algumas economias planejadas
para este fim. Comprou ontem.
Seis da tarde, fim de expediente. Poucos carros estacionados e muitas
vagas sobrando. O comércio já fechou e os trocados atirados com desdém, são
raros. Começa a anoitecer na Rua Turíbio de Olivença, que recebe alguns
contornos lúdicos devido às lâmpadas de vapor de sódio usadas na iluminação
pública, que emitem luz amarela. Quando o relógio da catedr al anuncia sete da
noite, tudo passa a ser mais lento, o alarido estonteante da civilização aos
poucos se acalma. Oito horas, e até os bares estão fechando. O malandro se vai
com seu ganho diário.
Agora é a Rua Amarela. Apenas duas quadras, menos de duzentos metros.
A rua tem este nome devido ao luminoso pálido, ambiente amarelo-fosco-
aveludado entre a fumaça de cigarros baratos e o som do declamar sem nexo de
poetas embriagados. Não se sabe ao certo desde quantas luas e de quantas
primaveras existe a tradição da Rua Amarela, em um trecho desde sempre
delimitado. Nove horas no sino da catedral, táxis já evitam este espaço, surgem
os seres da noite.
Surge ELA, com o dom natural de despertar lascívia. Dormiu o dia todo,
trabalha na noite. Apertada naquele curtíssimo vestido vermelho, é muito popular
no espaço de boemia informal. Contam que chegou aqui ainda criança, com os
tradicionais relatos de fugas de instituições, famílias substitutas, sobrevivente
nata. Tentou resistir sem família, que nunca conheceu. Sabe-se que é adulta
devido ao corpanzil sempre sobrando aqui e ali, dentro de tão pouca roupa. O
que encontra ainda tão cedo é um galanteador das antigas, que intenciona levá-
la para uma vida decente, que não fosse se entregar ao primeiro que lhe pagasse
uma bagatela cobrada por prazer rápido e efêmero.
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