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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Amoras
Gustavo Behr
Lisboa – Portugal
Não. O tempo das mudanças não chegou agora, outra vez. Ele, em verdade,
nunca foi embora depois daquele dia. Algumas amoras estão espalhadas pela
casa. Sente-se o aroma de novidade. Mantém-se, manteve-se.
Pela manhã percorro o empedrado da Rua do Diário de Notícias e parece-me que
estou sempre a viver permanentes descobertas, desde aquele dezembro que por
ali desci, um pouco sem querer, negligenciando o poder que o Bairro Alto contém
e que pode eclodir em qualquer momento. Recordo que entrei naquele pequeno
bar, clandestino, e foi como se nunca mais tivesse saído dali. Na verdade, o
Bairro Alto invadiu-me a alma, tomou o meu ser. Saindo do bar, distraído, chutei
aquele cesto de amoras, que rolaram para todos os cantos. Ainda juntei algumas.
Mas nunca consegui juntar todas. Nunca. Até hoje. Neste momento olho para o
banco de jardim à minha frente, e noto que há amoras a serem mordiscadas por
pardais. As amoras nunca mais cessaram a sua correria, a sua fuga, ao mesmo
tempo que permitem que eu as encontre.
Neste banco, nesta praceta da Rua do Século, estavas ali. Lembro-me como se
fosse hoje. Tinhas as unhas pintadas de vermelho e um vestido branco. Davas
migalhas de um croissant aos pássaros e saboreavas o livro de um escritor
latino-americano. Aproximei-me a pensar em amoras, a imaginar o quanto devias
apreciá-las. Transportei-nos para o futuro, para um banquete no Miradouro São
Pedro de Alcântara: amoras em nossas mãos e a vista de Lisboa, como um
quadro, aos nossos pés.
Com esta ideia sentei-me ao teu lado e antes de pensar em falar contigo, a
minha boca disse gostas de amoras? Tu nem tiraste os olhos do teu livro. A
primeira palavra que me disseste, por incrível que pareça, em todos os sentidos,
foi não.
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