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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Zé Caô
Rodrigo Alves
Rio de Janeiro/RJ
Caô um adjetivo, uma gíria muito usada no Rio de Janeiro para alguma mentira,
alguma balela, como bem disse, uma e não milhares e a todo momento. Caô é a
expressão que deu apelido a José Mauricio, mais conhecido pelos amigos como
Zé caô. Zé não perdia uma, toda oportunidade dada a ele da palavra, era um
descuido e pronto, soltava mais uma de suas pérolas.
Naquela sexta-feira de verão, fim de tarde, como de praxe os amigos do
trabalho reuniam-se no fim do expediente para tomar uma, tradicionalmente um
hábito na cidade maravilhosa. O papo era sobre tudo, mais o que predominava
na roda de amigos, era naturalmente o de sempre, futebol, mulheres e traição,
só não valia contar a própria, pois ninguém que se preze exalta suas próprias
derrotas. Naquele dia Zé parecia estar preocupado, bebia muito, ria pouco e
coçava a cabeça a todo o momento, sempre junto com suspiros profundos, que
logo chamaram a atenção dos amigos:
- O que foi Zé, o que te aflige.
Perguntou um amigo da roda a Zé caô.
E o pobre vivente, respondia em tom de tristeza.
- Não é nada, meu amigo, deixa pra lá.
E o papo prosseguia animado. Entre altas gargalhadas, lá estava o coitado do
Zé calado, e esse fato intrigava cada vez mais os amigos, que estranhavam esse
jeito acanhado do colega, pois sempre costumava ser agitado, e claro, tinha
como marca maior, contar muitas, mas muitas mentiras.
De tanto insistência, Zé confessou o drama que estava passando na sua vida. O
papo cessou, a risada parou, o clima era tenso, muita seriedade para escutar o
problema do colega. Lentamente Zé prosseguiu a relatar seu drama:
- Meus amigos, há dias que não durmo direito, não consigo parar de pensar
numa burrada que cometi, e o pior que dessa vez não tem a ver com nenhuma
mulher, nem com dinheiro, tão pouco confusão em buteco por conta de futebol,
mas o assunto é grave.
Zé parou de falar, apertou os lábios, suspirou e prosseguiu:
- Camaradas, por esses dias, tive um dia daqueles, problemas no trabalho,
dinheiro escasso, contas a pagar, enfim, após o expediente fui direto ao bar mais
próximo que encontrei pela frente, não pedi chope nem vinho, precisava de algo
mais forte e quente, a noite era para conhaque, depois de algumas doses, e de
me sentir um pouco mais leve, não fui me meter em nenhum cabaré para
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