Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Página 139
LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Com uma força que surpreende os enfermeiros, se atira contra a parede. Um
dos rapazes a segura, ela sente uma queimação no braço, fica tonta e vai para
trás, os olhos pesam, o corpo amolece e Maísa apaga.
No dia seguinte, numa sala próxima, o médico conversa com os pais e o
marido da moça. Explica que ela tem alucinações, que insistem que vem roubar o
filho e que muitas vezes só fica calma quando está com uma boneca ao lado.
Afirma também que já aumentaram a medicação, mas não há nenhuma previsão
de alta.
O marido suspira, diz que não sabe o que fazer, também sente muito a perda
do filho, mas precisa tocar a vida. A mãe chora e lembra que antes disso, a jovem
já havia sofrido outros abortos espontâneos, porém no começo da gravidez.
—Doutor, é uma sina. A maioria das mulheres da minha família já perdeu
seus bebês, eu mesma na primeira gestação, consegui segurar só até os seis
meses e a partir daí, o feto não se desenvolveu. Diz olhando para o marido
buscando apoio e ele confirma balançando a cabeça.
A senhora continua e conta outros casos, a prima que nasceu com o útero
virado e nunca conseguiu ter filhos, a própria mãe que perdeu dois bebês recém-
nascidos.
—A Maísa cresceu ouvindo essas histórias, porque isso é muito forte para
gente. Somos de descendência italiana, Doutor, adoramos parir e cuidar dos nossos
filhos, mas para as mulheres com nosso sangue isso é muito difícil.
Quando acorda, muitas horas depois, ela percebe que qualquer pequeno
movimento faz o corpo inteiro doer. Olha para o lado e vê que o seu bebe está em
segurança ao lado da cama, sorri, ainda bem que não está amarrada, só um pouco
zonza.
Pelos vidros, os pais e o marido se chocam junto com o médico ao observar
Maísa sorrindo, tentando amamentar uma boneca. Do lado de dentro, uma moça
sentada na cama, com os pés balançando, brinca de faz de conta para não
enlouquecer.
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