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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Prematuro
Renata Machado
São Leopoldo/RS
Maísa sente a luminosidade e abre os olhos devagar, buscando reconhecer
onde está. As paredes pintadas de azul-claro a lembram que lugar é aquele. Não
quer se mexer, tem medo, volta a fechar os olhos, gostaria de continuar dormindo.
Aproveita que está tudo em silêncio e sente o calor do sol entrando pelo vidro da
janela. Passa a mão pelo seu ventre e se pergunta por quê?
Ao longe, o bebê começa a chorar, ela abre os olhos rápidos e num pulo
senta na cama. Mal tem tempo de raciocinar e já está novamente naquele desatino
que não a deixa em paz, quer fugir, mas não sabe para onde. Se sente paralisada,
imóvel e impotente. Lá está a mulher, vestida com roupas sujas e rasgadas, é uma
maltrapilha apesar do vestido antigo denunciar que em alguma época teve poses.
Tudo em volta dela é escuro, sujo e estranho, onde pisa, há lama e o quarto claro
se torna um lugar sombrio. O único ponto de paz e beleza na cena é a criança que
a mulher tem no colo. Parece gozar com o sofrimento da outra que grita e se
debate na cama, sorrindo a mulher olha fixo para Maísa e sussurra: ele é meu.
Os enfermeiros entram correndo e a encontram desesperada, chorando e
gritando. Uma das enfermeiras acha a boneca no chão, embaixo da cama.
—Meu filho! Meu filho! Ela pegou o meu bebê! Grita se botando contra os
rapazes que tentam mantê-la na cama.
A enfermeira intervém pedindo que se acalme. Que não há ninguém ali, que
há meses ela perdeu o bebê, que infelizmente fetos morrerem no período próximo
ao nascimento é mais comum do que se pensa, que ela precisa colaborar e se
esforçar para voltar para casa o quanto antes e seguir a vida, que é jovem. Lembra
também que amanhã é dia de visita e ela deve estar bem.
Desde criança essas visões aparecem e ninguém nunca acreditou nela, por
anos silenciou sobre isso, mas as pessoas que via nunca tinham interferido na sua
vida até então. Enfrentou os nove meses de gestação vendo e ouvindo essa mulher
falar que o filho era dela, que estava na hora de acertarem a conta.
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