Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | страница 119
LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
uma série de lugares remotos menos conhecidos, ou por aqui mesmo, por perto.
Mais tarde, caindo na real, não consegui ir além de morar por alguns dias na casa
de minha tia, quando saí de casa, e rejeitei meu diploma de curso superior, que
acreditava, iria abrir para mim as portas do mundo. Assim, voltei pra casa com o
rabo entre as pernas. Não havia dado certo. Minhas asas de cera se derreteram
com tamanha fragilidade que fiquei contente em não ir para lugar nenhum,
temendo uma queda maior, como “Ícaro”-personagem da mitologia grega- que
morreu por ter o sol derretido suas asas de cera, quando tentara voar sobre o
precipício.
Dessa forma, descobri que o que eu ansiava encontrar estava por aqui
mesmo. Aliás, não eram os lugares, e sim as motivações que me impulsionavam
nesta busca desenfreada pelo desconhecido.
Fui me interessar por outras garotas no curso científico, após terminar o
ginasial, mas nunca me esqueci da Dirce. No final deste curso me preparei para o
vestibular de Engenharia, superando as deficiências que possuía nas cadeiras de
ciências exatas, especialmente em matemática e física, passando de aluno
mediano a melhor da turma. Tornei-me então “expert” em resolver derivadas e
integrais, fundamentais para o curso superior que almejava cursar. Só depois de
graduado em Engenharia é que eu reconheci que havia cometido o mesmo erro
de querer ver o mundo afora: eram apenas ilusões movidas pela minha mente de
sonhador, fantasias geradas pela timidez de meus anos de adolescente.
Afinal de contas, o que eu queria, de verdade, era assistir às cores dos
olhos da Dirce (ocultos pelos seus óculos escuros) numa sessão vespertina de
cinema...
114