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LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018
Óculos Escuros
Fernando Antônio Fonseca
Belo Horizonte/MG
Eu morava em um bairro suburbano de Belo Horizonte. As moças de minha
idade, do meu bairro -moças de família-, eram todas frescas. Gostavam dos
rapazes mais velhos, que tinham carro e frequentavam os clubes grã-finos da
cidade. Não davam a mínima bola para nós, rapazes mais novos e simples da
vizinhança. Nos contentávamos com as meninas menos preconceituosas, que
eram mais liberais e namoravam nos cinemas e no portão de casa. Exageravam
nos beijos e nas carícias, e se casavam e iam morar na mesmo região, perto da
casa dos pais, destino quase que irremediável.
Conheci a Dirce no colégio onde cursava o ginasial, no turno da noite. Ela era
da minha turma e usava óculos escuros mesmo à noite, vendando seus olhos.
Davam um toque especial ao seu rosto, o que a tornava muito charmosa. Ela
tinha os cabelos pretos lisos, na altura dos ombros, era da minha estatura e tinha
um corpo “mignon”. Um dia eu estava jogando futebol de salão na quadra
iluminada do colégio, após as aulas, e ela não foi embora, pois ficou a me
observar com um sorriso nos lábios, de quem estava gostando. Então,
entusiasmado, pedi à minha mãe para comprar duas calças de tergal para mim, e
passei a ir de calças novas às aulas só para lhe agradar. Ficamos trocando
olhares e gentilezas por um bom tempo, como num inocente amor platônico.
Houve um dia, porém, que tudo mudou, pois um colega meu a convidou para ir
ao cinema e ela aceitou. No outro dia o comentário no colégio era só este. Uns
diziam que haviam seguido os dois até o cinema e que só viram o meu colega
passar o braço em torno de seu ombro; outros diziam que não houve nada, e que
eles ficaram mudos um ao lado do outro sem trocar uma única carícia. Haviam
aqueles que diziam que eles não tinham ido ao cinema, e que a Dirce tinha dado
bolo no parceiro, etc...Certo é que, gradativamente, fui perdendo o interesse por
ela e seus olhos (ocultos pelos óculos escuros). Ela havia me decepcionado.
Queria viajar para o exterior, conforme descobri nas aulas de geografia e
história. Ia me familiarizando com as características de cada um dos países que
estudávamos, o que foi alimentando meu desejo de conhecer o mundo: os países
desenvolvidos com seu melhor padrão de vida; os países subdesenvolvidos e sua
problemática socioeconômica; os acidentes geográficos ao redor do planeta; a
fauna e a flora; a variedade de línguas faladas; o meio ambiente; enfim, tudo
alimentava meu sonho de voar como um pássaro, e entender as variadas culturas
do planeta, como um infatigável antropól ogo. Tinha uma obsessão: viajar para a
Escandinávia e descobrir seus mistérios, mas me contentava em vir a conhecer
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