Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 8ª edição | Seite 101

LiteraLivre nº 8 – Mar/Abr de 2018 O Andarilho Joedyr Bellas São Gonçalo/RJ Eu o conheci nos anos 1970. Estávamos em uma dessas viagens doidas. Não, não se tratava de LSD. Era uma dessas viagens de jipe, de abrir a garagem, entrar no carro, colocar o pé no acelerador e deixar seguir. Qual é o seu medo? A mochila nas costas. Ou melhor, no chão do jipe, no lugar do banco do carona, que não tinha carona. Era eu e o vento na cara. Os pais ficavam meio apreensivos, mas entendiam a época e a rebeldia do filho querer sair, de querer conhecer o mundo, de querer saber o que era liberdade. Uma calça Lee? Um cigarro no canto da boca? Os pés descalços na areia da praia? O vento na cara? Não tinha porto nem paradeiro. Destino? O chão era um convite e tanto. A estrada sem fim. Os malucos nas fazendas comunitárias, os hippies vendendo seus artesanatos nas calçadas, os colonos cuidando da roça, a fruta madura logo ali em um esticar de braço, um prato de comida. Senta aqui com a gente. A comida servida, a prece em agradecimento, a água fresca da fonte, um novo amigo, um cochilo na rede, e devia seguir adiante. Os laços existiam. Dentro do peito se guardavam os beijos, o aperto de mãos, a palavra singela, uma história contada debaixo de uma árvore frondosa, a pinga para abrir o apetite, a salada de batata-baroa, o moleque que ficava me olhando meio desconfiado, um afago na cabeça, um aceno, as mãos estendidas, e às vezes 96