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LiteraLivre nº 4
Mulheres Buarqueanas
Ana Lúcia Magela
Belo Horizonte/MG
Chico Buarque é considerado o compositor da “alma da mulher”. Poucos
poetas desvelaram, como ele, o óbvio e o oculto do feminino. Das
mulheres/personagens de Chico podemos observar, em princípio, dois tipos de
registros: aquelas que permanecem em seu papel tradicional e aquelas que
forçam os limites sociais. Correndo os riscos que geram todas as classificações,
vamos pensar na heroína romântica e subserviente cantada em, por exemplo,
“Com açúcar com afeto”. Ela tenta promover a completude, a harmonia
inalcançável, pois mesmo com todo doce predileto que prepara para agradar o
companheiro esse lhe escapa para “um bar em cada esquina”. Quando ele
retorna bêbado e vem “feito criança” ela “ao lhe ver assim cansado,
maltrapilho e maltratado” não consegue se aborrecer. Vai logo “esquentar seu
prato”, beija-o, por tabela, em seu retrato. “Mulheres de Atenas” “quando
fustigadas não choram, se ajoelham, pedem imploram mais duras penas”. Na
espera dos companheiros que lutam nas guerras ela “tecem longos bordados”.
Só sentem medo, “nem gosto, nem vontade”, conformam-se e recolhem-se.
Nada reivindicam “não fazem cenas”. Eles, bêbados de vinho, divertem-se com
outras mulheres, mas aos pedaços voltam aos braços das companheiras... Em
“Tatuagem” ela quer uma completude eterna, corporal e parasitária. Perpetuar
no corpo dele como “escrava que você pega, esfrega, nega, mas, não larga”,
para dar ao homem coragem, aluciná-lo, iluminá-lo, mas também retalhá-lo
em postas. Uma tatuagem risonha e corrosiva... mas, que ele nem sente. Em
“Sem fantasia” as lutas foram enfrentadas para encontrar esse “menino vadio”
e ela veio para não morrer de tanto esperar. Agora ela o deseja fraco e tolo,
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