Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 73
LiteraLivre nº 4
Hoje
Lírico
Salvador/BA
Hoje, olhando para 10 anos atrás, saboreando o frescor da ingenuidade,
recordo-me dos nossos devaneios infantis de posteridade: tramas
universitárias, aluguel de estúdios, viagens inolvidáveis, demandas
pseudoadultas... A certeza que pairava na minha retina acerca da
amizade de cores eternas sugeriam atemporalidade: trocas intermináveis
de confidências e medos, horas destinadas a conversas repetitivas sobre
colegas de faculdade metidos, professores austeros, disciplinas incríveis,
paixões
inalcançáveis,
Rememoro
nosso
festas
ideário
imperdíveis,
pueril
de
que
versos
no
meio
irretorquíveis...
da
graduação
dividiríamos nossos dias entre os ansiados shows da banda e o êxito da
atividade profissional, nossas mochilas seriam livros e acordes e
seríamos aplaudidas e ovacionadas em tudo, como se fosse possível para
a criatura humana ser indefectível. Essa era enfim a narrativa canônica
que plainava em nosso imaginário... embora houvesse outras narrativas
possíveis, que desconhecíamos.
Hoje, olhando para 10 anos depois, não vislumbro mais as nuances
daquelas cores de codinome eternidade; os monólogos interiores são
reincidentes e não existem mais certezas. Hoje, mal sabemos conjugar o
malabarismo de trabalhar e estudar, e sentimos privilégio quando há
tempo para academia e dormir 6 horas por dia. Hoje, há mais acessos a
sites de bancos do que a cifras de música; os aplausos são curtos e
raros, enquanto a dificuldade começa antes mesmo do rotineiro cansaço
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