Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 51

LiteraLivre nº 4 acesso à praia, bem cedinho, o cheiro dela denuncia sua presença de longe. É só sacar a câmera e fotografar. Qual mesmo o nome dela? Caramba, eu era conhecido entre os parentes e amigos mais próximos como o “história viva” exatamente por nada esquecer. Ser capaz de gravar tudo em detalhes como se fosse portador de uma memória fotográfica. O que está havendo? Esquecer o nome dessa orquídea é um absurdo. Fui ler o que dizem os especialistas. Primeiro descobri que desde os 20 anos venho destruindo minha memória ao não dar descanso, nem folga, nem ócio para a mente. Sempre trabalhei no trabalho e em casa, sempre estive ligado ao hábito estudar/trabalhar em torno de 16 horas por dia. Parece loucura, mas é a verdade e muito comum entre pobres que tentam crescer na vida. Ocorre que essa vontade de estudar e trabalhar destrói, pelo estresse, o cérebro. Nós últimos 40 anos não me lembro de um sonho sequer. Dormir 4 a 5 horas por dia foi minha rotina a vida toda. Afinal dormir é uma perda de tempo, um reles treinamento para a morte. Mas, é no sono que o cérebro solta a franga e bota para quebrar, dança, canta, se diverte e esquece o batente. Sacrifiquei isso tempo demais. Vou procurar o geriatra e saber se há um jeito de proteger a tal memória nova. Entretanto, vale aqui alertar meus amigos novos, aos estudantes trabalhadores como eu fui, aos pobres em geral: deem chance à cabeça, colocando-a para dormir mais, tendo mais tempo ocioso quem sabe com a família, proseando com os amigos, pescando ou lendo um livro infantil do Monteiro Lobato. Bom, olhando aqui meu álbum de orquídeas dei de cara com a safadinha esquecida e é uma Brassavola tuberculata. Até agora não me conformo de esquecer um nome tão simples assim. É a idade, o estresse e a vida. Será que vou esquecer também os políticos que ferram o Brasil nos últimos 30 anos? Sei lá. Vou procurar um médico. 46