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LiteraLivre nº 4
acesso à praia, bem cedinho, o cheiro dela denuncia sua presença de longe. É
só sacar a câmera e fotografar. Qual mesmo o nome dela?
Caramba, eu era conhecido entre os parentes e amigos mais próximos como o
“história viva” exatamente por nada esquecer. Ser capaz de gravar tudo em
detalhes como se fosse portador de uma memória fotográfica. O que está
havendo? Esquecer o nome dessa orquídea é um absurdo. Fui ler o que dizem
os especialistas.
Primeiro descobri que desde os 20 anos venho destruindo minha memória ao
não dar descanso, nem folga, nem ócio para a mente. Sempre trabalhei no
trabalho e em casa, sempre estive ligado ao hábito estudar/trabalhar em torno
de 16 horas por dia. Parece loucura, mas é a verdade e muito comum entre
pobres que tentam crescer na vida.
Ocorre que essa vontade de estudar e trabalhar destrói, pelo estresse, o
cérebro. Nós últimos 40 anos não me lembro de um sonho sequer. Dormir 4 a
5 horas por dia foi minha rotina a vida toda. Afinal dormir é uma perda de
tempo, um reles treinamento para a morte. Mas, é no sono que o cérebro solta
a franga e bota para quebrar, dança, canta, se diverte e esquece o batente.
Sacrifiquei isso tempo demais.
Vou procurar o geriatra e saber se há um jeito de proteger a tal memória nova.
Entretanto, vale aqui alertar meus amigos novos, aos estudantes trabalhadores
como eu fui, aos pobres em geral: deem chance à cabeça, colocando-a para
dormir mais, tendo mais tempo ocioso quem sabe com a família, proseando
com os amigos, pescando ou lendo um livro infantil do Monteiro Lobato.
Bom, olhando aqui meu álbum de orquídeas dei de cara com a safadinha
esquecida e é uma Brassavola tuberculata. Até agora não me conformo de
esquecer um nome tão simples assim. É a idade, o estresse e a vida. Será que
vou esquecer também os políticos que ferram o Brasil nos últimos 30 anos? Sei
lá. Vou procurar um médico.
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