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LiteraLivre nº 4
tipo que ocupa nossa mente enquanto esperamos o metrô.
O menino deixou a lágrima cair sem histeria.
– Pirralho, por favor, não faça isso. Você fica bem, eu fico bem, lembra?
Então, nos poupe de reticências. Vou chamar um táxi.
“Alessia se ajeitou ao lado do corpo inerte do marido, acariciou o rosto sem brilho e, para
sua surpresa e horror, ela ainda o amava...”
– Não precisa. Eu sei o caminho de casa, doutora. A senhora sabe o seu?
– Doutora? Se sabe quem eu sou, estamos em desvantagem.
“Alessia legista beijou a boca do marido, sentiu gosto de sangue, então levou a arma à
boca e, sem pensar, puxou o gatilho...”
O menino ignorou a repreensão sutil.
– Suas atitudes são incongruentes com sua agonia, não vê?
Diante da expressão adulta, a dúvida tornara-se cólera, e a cólera,
cegueira. Fugir seria a opção justificável para daqueles que aceitam o que lhes
é imposto, contudo seguem em frente, o que tornava Alessia uma exceção...
“Alexa não deixou fotografias, quiçá saudades...”
…o menino cresceu, suas roupas se romperam durante a breve metamorfose
repugnante. Enquanto se retorcia no asfalto como um cão de rua coçando suas
pulgas, gemia diante da extensão da estrada que os separava. A pele pendia
nas poucas partes ainda humanas do ser disforme, reconhecido pelos olhos
inundados por tempestades constantes.
“Os corpos sobre a cama, se vistos de longe, pareciam emaranhados em um abraço solene...”
A médica legista assistiu ao processo inédito impassível. Ao fim, quando
o homem se pôs de pé com dificuldade, ela reafirmou o rancor de menina sem
alterar o tom de voz, muto menos a expressão.
“Alessia deixada de existir e se juntara aos seus mortos, não mais como observadora
impassível… ”
– Agonia? O que sabe sobre isso?! E sobre mim?
– Pouca coisa, o que é o bastante. Você fica bem, eu fico bem, então nos
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