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LiteraLivre nº 4
difícil de confeccionar, de pronunciar, que deverá ser comido com
elegância, nunca à mão. Não faremos amor à pressa, missão de corpo
presente: em vez disso, deixaremos que o desejo adolescente,
incontrolado, repentista, nos una, e eu trarei para casa o cheiro do teu
corpo, guardando-o comigo o tempo que o decoro e a higiene permitem.
Estranhos um do outro, poderemos inventar-nos todos os dias; sermos
um para o outro o que cada um de nós quiser que o outro seja, sem
precisarmos de nos explicar, de nos desculpar. Nunca nos conheceremos
realmente, e nisso residirá a atração mútua. E tu nunca me cativarás, e
eu nunca te cativarei. Não precisaremos um do outro. Nenhum de nós
chorará nunca a partida do outro. E eu ficarei no meu canto a fazer o
que tenho de fazer e a preparar-me para o próximo encontro contigo, a
desejar que o tempo passe depressa. E tu ficarás no teu canto a fazer o
que tens de fazer e a escrever-me, talvez, uma carta que não enviarás,
porque receias que seja tola por efeito do enamoramento. E eu serei
infeliz e escreverei um grande romance que nunca será publicado. E tu
serás talvez feliz porque foste fiel ao teu princípio universal, o da
escassez.
É isto que queres que eu queira?
E se, por outro lado, quisesses, antes, que eu achasse interessante
acordarmos juntos, de manhã? Uma manhã qualquer, depois de uma
noite em que tu, cansado de trabalhares, te deitavas por fim junto a
mim, acordando-me, para juntos fazermos o que os nossos corpos
mandassem, e, depois, a tua cabeça no meu peito, a minha mão no teu
cabelo, tu dormirias realmente mais do que as três horas diárias que te
impões… E se víssemos encanto num café matinal? Se os corações
batessem desordenados ao ajeitar-te o cabelo, ao roçares meigamente
um dos teus dedos na minha mão? Se tivesse graça um banho a dois,
antes de começarmos o dia? E se? Assim. Por vezes. Sem exaustão, sem
esgotamento.
(É isto prender a mão!)
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