Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 19

LiteraLivre n º 4

Amor Desfasado

A. M. Mondas Évora- Portugal
Que interesse teria acordar contigo todas as manhãs, e sofregamente procurar em ti os restos dos cheiros da véspera? Que encanto haveria em tomar contigo o café matinal, ajeitar-te o cabelo enquanto fumássemos o primeiro cigarro? Que milagre seria esse, de ouvir bater com mais força o coração ao fazer-te um gesto de ternura, dizer-te uma palavra sem nexo? Que graça encontraria em te ajudar a escolher a roupa para enfrentares o teu dia de trabalho? Antes morrer de saudade todos os dias um pouco. Deixar de comer. Não dormir. E escrever-te cartas que não te envio. E, quase morta, rever-te por fim, depois de tanto tempo passado sobre o último encontro, o estômago às voltas, o nó na garganta que não deixa passar as palavras ternas que gostaria de te dizer ao ouvido ou olhando-te nos olhos, porque temo que me aches ridícula se as disser como as quero dizer, e depois saírem-me como se eu não me importasse de quase nunca te ver, como se me fosses indiferente, e nem isto te devia dizer, porque não, nunca te pedirei o que gostaria que me desses, que não é muito, apenas que me prendas a mão, mas que ainda assim é de mais. E, depois da tua longa ausência, comportar-me como me comportei no último encontro, como se fosse mentalmente inabilitada, uma verdadeira imbecil, incapaz de articular duas palavras com sentido, apressada em te ter junto de mim, dentro de mim, nada mais, que raio fiz eu?, comecei a vestir-me, e tu não me impediste porque não sabias se eu queria ficar mais tempo contigo, e eu vesti-me rapidamente porque não sabia se querias que ficasse mais tempo contigo... Assim, amantes longínquos no espaço e no tempo, evitaremos que se instale a repetição monótona das mesmas coisas, a prática constante, a rotina: ficaremos com a maravilhosa poesia do estranhamento, do encontro raro, da antecipação do momento desejado, metodicamente preparado. Não diremos mais uma vez o que já dissemos, as mesmas palavras reditas: procuraremos incessantemente sinônimos inusitados, inusados, assuntos novos, histórias fantásticas, sempre interessantes, de preferências engraçadas. Não comeremos as coisas singelas, banais, da cozinha familiar: haverá sempre à mesa um prato requintado feito por ti,
14