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LiteraLivre nº 4
Um Homem de Deus
Ligia Diniz Donega
Ribeirão Preto/SP
Outro dia, por acaso, passeando pelos canais da TV, deparei-me com um
documentário. O tema: Betinho, o sociólogo Herbert de Souza.
Iniciam o programa com a volta dele ao Brasil, depois de um exílio, em
1979, ao som de Elis cantando O Bêbado e a Equilibrista.
A Jornalista o define como “um Brasileiro que abraçou sonhos”, combateu
a fome e falou abertamente sobre a AIDS, quebrando tabus. Um corpo frágil
mas uma força de gigante.
Eu sabia algumas coisas sobre a trajetória dele, mas nunca havia visto
um programa sobre ele. Confesso que além da admiração, senti-me muito
pequena e egoísta.
Em 1986, Betinho contraiu o vírus da AIDS. Naquela época pouco se
sabia sobre o comportamento desta síndrome e as transfusões de sangue eram
feitas sem teste algum. Seus dois irmãos, Henfil e Chico Mário, também foram
infectados da mesma maneira.
Ao assistir suas entrevistas, vi um homem de olhar sereno, voz suave e
uma lucidez e equilíbrio extraordinários. Ele fala que a AIDS o ensinou que o
que temos de mais precioso é a vida e o tempo, e que temos que emprega-lo
da melhor maneira possível todos os dias. Fiquei pensando, um homem que já
nasce marcado com a hemofilia e ainda por cima é infectado por um vírus
mortal, numa época onde nem tratamento existia (os coquetéis vieram muito
depois), era para ser revoltado ou se entregar à má sorte e esperar o dia de
morrer. Ao invés disso, fez exatamente o que disse: empregou o tempo que
lhe restava para fazer o seu melhor. Tinha pressa.
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