LiteraLivre n º 4
Filho. Deixa eu ler sua mão? Moça. Eu sou poeta de rua. Não tenho dinheiro não. Me deixa ver filho. Você não tem um dinheirinho aí? Dinheiro eu não tenho não. Mas tenho poesia. Eu tenho previsão. Ela diz. Lê um poema para mim. Que eu lhe entrego a canção. ok leio. E li lá. E ela disse. Poema bonito menino.
Moça. Vamos fazer assim. Eu lhe dou um livrinho de poemas desse mais simples. e você me lê a mão. Combinado? Combinado. Aí ela pega a mão. Para ler. Bem rapidinho. Sem muito maracutaia nem trimilique. Para dizer umas coisas. E diz.
Vai viver muito. Mais de 90 anos. Já fugiu da morte e de muito risco de vida. Viajou um bocado. É feliz. Tem comida e tem teto. Mas falta um bocado de paz. Amou uma só vez. Mas teve muita tristeza. Agora tem essa mulher. Que você não acredita muito não. Mas gosta muito de você. Seu caminho é bom. Daqui um mês mais ou menos as coisas vão achar seu lugar. Acredita nela. E acredita no seu coração.
Tá bom. Deixei o poema. Agradeci. ela também ficou agradecida. Virei as coisas e ela já começou a pedir cigarro para o próximo transeunte. E eu achei um barato. Tá certo. Cigano generaliza pra caralho. Diz coisa geral para todo mundo. Coisa repetida. Fugi da morte. Amor uma só vez. Forte e foi forte. Mas no baralho geral da sabedoria de rua tá até bom demais.
Aí decidi parar. Sentar a bunda nessa cadeira sebosa de lan house do centro. E pedir a manivela para fazer o computador funcionar. Vou escrever um e-mail para ela. Quem sabe é tempo. Quem sabe ainda dá. Recuperar aquela inocência perdida e voltar a amar.
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