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LiteraLivre nº 4
como se a menina quisesse alcançar algo ou alguém. Com boa capacidade de
observação, seria possível notar que as unhas, bem cuidadas, estavam
cobertas de sangue (de sangue de verdade, nada daquele esmalte horroroso
que virou moda alguns anos mais tarde).
Havia sangue igualmente no corpo, mas pouco perceptível em razão da
blusa e da calça escura que ela trajava. Arrematando a cena, uma pistola
automática jazia próxima, sem que se saiba se chegara a ser usada. Uma foto
triste, em que beleza, sofrimento, revolta e selvageria se mesclavam de modo
patético. Que destino mais lamentável o seu, gatinha! Vê-la assim, após tanto
tempo, provoca um confuso turbilhão de ideias e sentimentos.
Quem a viu brincando com outras crianças de sua idade na calçada da
rua Antônio Basílio não podia imaginar o que ocorreria mais adiante. Você era
ágil e esperta, gostava de brincar de pique-bandeira, de jogar queimada, de rir,
fazer pilhéria, na mesma medida dos demais à sua volta. Dos que participavam
daqueles folguedos infantis, talvez ninguém saiba exatamente quando e como
a despreocupada alegria da infância cedeu lugar à ansiedade adolescente e às
primeiras manifestações de inconformismo. A maior parte de sua história
ocultou-se dos que a conheceram. Nem mesmo os dossiês dos serviços de
inteligência conseguirão elucidar todas as questões que podem ser levantadas
quanto à trajetória seguida.
Parece evidente que você se juntou a uma causa radical e às pessoas
erradas, quem sabe até por motivo sentimental. Naquele país ansioso por
resolver-se, pleno de conflitos sociais e de diversa índole (boa parte dos quais
perdura até os dias de hoje, ainda que com intensidade e roupagem variáveis),
a jovem escolheu seu caminho, minado pela violência de parte a parte,
violência brutal, descabida, infrutífera e crescente até a aniquilação do
contendor mais fraco. Sua esperteza não foi capaz de ver além da insana
ideologia que conduziu seus passos. Sua agilidade foi insuficiente para evitar
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