Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 16

LiteraLivre nº 4 como se a menina quisesse alcançar algo ou alguém. Com boa capacidade de observação, seria possível notar que as unhas, bem cuidadas, estavam cobertas de sangue (de sangue de verdade, nada daquele esmalte horroroso que virou moda alguns anos mais tarde). Havia sangue igualmente no corpo, mas pouco perceptível em razão da blusa e da calça escura que ela trajava. Arrematando a cena, uma pistola automática jazia próxima, sem que se saiba se chegara a ser usada. Uma foto triste, em que beleza, sofrimento, revolta e selvageria se mesclavam de modo patético. Que destino mais lamentável o seu, gatinha! Vê-la assim, após tanto tempo, provoca um confuso turbilhão de ideias e sentimentos. Quem a viu brincando com outras crianças de sua idade na calçada da rua Antônio Basílio não podia imaginar o que ocorreria mais adiante. Você era ágil e esperta, gostava de brincar de pique-bandeira, de jogar queimada, de rir, fazer pilhéria, na mesma medida dos demais à sua volta. Dos que participavam daqueles folguedos infantis, talvez ninguém saiba exatamente quando e como a despreocupada alegria da infância cedeu lugar à ansiedade adolescente e às primeiras manifestações de inconformismo. A maior parte de sua história ocultou-se dos que a conheceram. Nem mesmo os dossiês dos serviços de inteligência conseguirão elucidar todas as questões que podem ser levantadas quanto à trajetória seguida. Parece evidente que você se juntou a uma causa radical e às pessoas erradas, quem sabe até por motivo sentimental. Naquele país ansioso por resolver-se, pleno de conflitos sociais e de diversa índole (boa parte dos quais perdura até os dias de hoje, ainda que com intensidade e roupagem variáveis), a jovem escolheu seu caminho, minado pela violência de parte a parte, violência brutal, descabida, infrutífera e crescente até a aniquilação do contendor mais fraco. Sua esperteza não foi capaz de ver além da insana ideologia que conduziu seus passos. Sua agilidade foi insuficiente para evitar 11