Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 15
LiteraLivre nº 4
A Gata Da Foto
Fernando Jacques de Magalhães Pimenta (JAX)
Brasília/DF
Era uma morena, jovem e bonita, como tantas outras da cidade do Rio
de Janeiro. Bonita a ponto de fazer pensar que já deveria ter sido
anteriormente publicada sua foto, ora estampada na primeira página da edição
daquele dia do jornal. A contemplação da imagem certamente suscitou reações
e indagações das mais diversas. Muitos devem haver acreditado que a moça
parecia mais jovem do que a matéria do jornal indicava e até mesmo colocado
em
dúvida
a
veracidade
da
informação
jornalística.
Vários
leitores
perguntavam-se como era possível aquela menina ter chegado aonde chegou,
enquanto outros se renderam à beleza cristalina e exclamaram, em seu íntimo:
“que gata!” ou “que desperdício!” Alguns poucos não resistiram à dureza
humana para refletir na suposta lógica do destino, sentenciando que cada um
colhe o que semeia e que beleza não basta para o sucesso na vida.
Com um olhar mais atento e certa dose de imaginação, podia-se
perceber que, apesar de fechados no instantâneo da foto, os olhos da jovem
estavam abertos e assustados. Miravam, quase com horror, as disparidades e
as contradições daquele Brasil dos anos sessenta, em que a intolerância e a
falta de amor ao próximo manchavam conquistas como o bicampeonato
mundial de futebol no Chile e a genialidade da Bossa Nova. Quanto desencanto
transmitia aquele olhar sobre as mazelas brasileiras!
O corpo, estendido meio de lado sobre o terreno arenoso, com as pernas
ligeiramente cruzadas, contribuía para reforçar a convicção de que a moça era
mesmo muito bonita. Uma gata, sem dúvida! As mãos e os braços estendidos
também impressionavam. Pareciam estender-se em determinada direção,
10