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LiteraLivre nº 4
O Grande Barato
Cristina Bresser de Campos
Curitiba/PR
Semana passada fui visitar um asilo onde ficam abrigados homens e
mulheres. Alguns são acamados, uns são cadeirantes, mas a maioria
pode se locomover. Pedi para dar uma volta e conhecer os idosos. Na
mesma hora me deixaram muito à vontade e me dirigi para a sala de
televisão, onde a maioria dos idosos fica reunida.
Conversava com uma senhora quando ela me interrompeu e perguntou:
¬ Que horas são? São 15h30min, Dona Lucila, a senhora tem algum
compromisso? ¬ Não, não, ainda dá tempo...
Passaram 10 minutos e outra senhora, muito agitada, passou e
perguntou para uma terceira velhinha: ¬ Que horas são? E a velhinha: ¬
Ainda faltam 20 minutos. Ah, bom! E eu, com medo de estar
atrapalhando algo, perguntei para minha interlocutora: ¬ Dona Lucila,
porque vocês estão tão preocupadas com o horário? Vocês tomam chá
às 16h?
¬ Não, não, é que 16h é a Hora do Remédio!
Eu, sem entender muito bem a importância da Hora do Remédio,
continuei a ouvir o que ela contava, quando uma agitação começou a
tomar conta do lugar. De repente, aquela sala quase silenciosa e um
tanto sorumbática, começou a fervilhar. Velhinhos e velhinhas se
movimentavam todos na mesma direção, excitados e falantes.
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