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LiteraLivre Edição Especial nº 03 - 2019
preenchendo com atenção enquanto levantava a cabeça raramente para olhar as
telas filmando o nada acontecendo.
O relógio despertador que trouxe de casa contava as horas em seus ponteiros
precisamente com um clique a cada segundo. Às onze da noite ele soaria alto,
informando o que dali a quinze minutos deixaria seu posto e retornaria para casa,
caminhando pela noite com sua lanterna.
A caminhada no breu que fazia durante esses dias possivelmente deixaria
qualquer um em temor. A escuridão e o silêncio despertam essas emoções
comumente. No entanto, ele não se sentia afetado por isso. Há tempos que
estava na profissão de vigilante, e para exercer esse ofício era imprescindível a
falta de melindres. Era ele também um tipo que gostava de solidão, portanto
nada melhor que o caminho de volta a sua residência para a contemplação.
Em uma dessas reflexivas caminhadas começou a questionar o que deveria ter
acontecido de tão insueto a ponto de fazer residentes daquele bairro deixa-lo
daquela forma. Embora achasse curioso no princípio, quando conheceu o bairro,
não era tão incomum o êxodo em sua cidade, dado o momento de crise
econômica em que viviam. No entanto, o bairro parecia ter sido enjeitado por
outras circunstâncias.
Em uma das noites, após a costumeira palavra-cruzada e servir-se de sua janta,
ele repara jogado displicentemente sobre uma das mesas um caderno. Era a
folha de ponto, onde estava anotado os horários de serviço. Não havia sido
orientado a preencher nenhum relatório, mas parece que era algo que deveria ter
feito. Diariamente, durante quase um ano inteiro, o vigia noturno anterior havia
marcado seus horários. Sempre com certa pontualidade, chegava ao cair da noite
e deixava o local pouco depois das onze horas.
Nos últimos dias de serviço, no entanto, havia estendido seu horário. Onze e
meia, quinze para a meia-noite, até culminar na última noite, onde havia anotado
seu horário de saída a meia-noite e um, exatamente.
Aquilo o alarmou por um instante. De repente, o abandono do bairro e a saúde
do vigia anterior começaram a lhe parecer algo mais grave do que pensou a
princípio. Preocupado, começou a vasculhar o quarto em busca de alguma pista
do que teria acontecido. Embaixo da cama, então, encontra uma mala de
viagem. O nome na etiqueta dela não deixava dúvidas de que pertencia ao antigo
vigia.
Ao abri-la e vasculhar seu interior, ele se depara com recortes de jornais e livros
antigos. Os recortes pareciam seguir sempre o mesmo tema. Reportagens sobre
casos macabros ocorridos na cidade. Possessões demoníacas, avistamento de
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