Revista LiteraLivre 7ª edição | Page 134

LiteraLivre nº 7 – janeiro de 2018 muitas noites dela doando e sorvendo luxúria. Em discretas lágrimas numa quarta nublada da indiferente Curitiba. Dora sempre esteve ali, idiossincrática em seu tom verde espalhafatoso, contracenando com o vermelho ardência dos cabelos e da alma dela. Um dia roubaram Dora. Roubaram-na sem dó, como tanto sem dó o fazem tudo, e o chão já não muito firme de Nathalia, fiquei sabendo, ficou sumido por um tempo. Uns dias, talvez. O crime de Dora era existir única e a pena foi a violação: desmembraram-na de todas as peças e de toda a essência, restando a dor que eu, você e Nathalia podíamos sentir pelo passado. Mas é assim. Vida vai, vida vem. Tudo fica bem. Um dia roubaram Nathalia. Roubaram-na sem dó, como tanto sem dó o fazem tudo, e o meu chão muito firme, saibam, ficou sumido por um tempo. Não sei quantos dias mais. O crime de Nathalia era existir única, nascida num falo, fez-se mulher mais pura por ter de se fazer num mundo hostil, e a pena foi a violação: estupraram-na do e no corpo que presumia dela, restando a dor que só eu e você podemos agora sentir. Não devia ser assim. Vida vai, vida vem. Vai ficar tudo bem? 129