LiteraLivre nº 7 – janeiro de 2018
muitas noites dela doando e sorvendo luxúria. Em discretas lágrimas numa
quarta nublada da indiferente Curitiba. Dora sempre esteve ali, idiossincrática em
seu tom verde espalhafatoso, contracenando com o vermelho ardência dos
cabelos e da alma dela.
Um dia roubaram Dora. Roubaram-na sem dó, como tanto sem dó o
fazem tudo, e o chão já não muito firme de Nathalia, fiquei sabendo, ficou
sumido por um tempo. Uns dias, talvez. O crime de Dora era existir única e a
pena foi a violação: desmembraram-na de todas as peças e de toda a essência,
restando a dor que eu, você e Nathalia podíamos sentir pelo passado.
Mas é assim. Vida vai, vida vem. Tudo fica bem.
Um dia roubaram Nathalia. Roubaram-na sem dó, como tanto sem dó o
fazem tudo, e o meu chão muito firme, saibam, ficou sumido por um tempo. Não
sei quantos dias mais. O crime de Nathalia era existir única, nascida num falo,
fez-se mulher mais pura por ter de se fazer num mundo hostil, e a pena foi a
violação: estupraram-na do e no corpo que presumia dela, restando a dor que só
eu e você podemos agora sentir.
Não devia ser assim. Vida vai, vida vem. Vai ficar tudo bem?
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